A Maçã
Sobre o pedaço que te falta…
Roubei-o com os lábios cansados pela espera da palavra madura. Nem era tempo de colheita. Mas, com as pontas dos dedos a salivar, colhi-te da árvore mais rica do pomar.
- Sê paciente! Há uma primavera imensa a prometer a cor dos frutos.
Mas que dizer? Que a gula foi mais valente e corajosa, e precipitou o meu desejo pela tua doçura suculenta. Soltei o meu delírio e percorri a tua face redonda, admirando a beleza da perfeição. Tentei a resistência por breves segundos, prolongando o estado de fogo em ebulição e da loucura a alastrar pelos cabelos.
Desinquietaste-me lá do alto do teu pedestal onde te encontravas. E da tua boca cintilavam as noites de verão a pedir refrescos de hortelã para acudir à minha sede. Desafiaste o meu sossego. E o meu pecado brotou das flores que as abelhas beijaram. Ainda trago vestígios de pólvora. Sou culpada pelo crime e tu pela cumplicidade. Roubei-te o pedaço que falta. Trago-o comigo na memória melancólica dos dias vastos, onde o vento alastra sorrisos e varre de boca em boca o sabor das estrelas.
A
minha voz ganhou o tom adoçado das horas. Os meus olhos vislumbram roubar-te os pedaços que
sobram. Encher-se de ternura. Deleitar-se em cada gomo.
Desde então, a minha alma demora-se nos umbrais. Vigilante de que nenhuma outra ouse o mesmo pecado. Aguardo-te na volta da lua e preparo as mãos para colher-te por inteiro. E não me valho de permissão. Sou a dona do pedaço que te falta. É um trato vitalício. Porque és nada sem a tua metade...
E eu sou o vazio sem o resto que me acrescenta.
Liliana Mesquita Machado

Comentários
Enviar um comentário