Mensagens

A mostrar mensagens de maio, 2024

A RUÍNA DO TEMPLO

Imagem
(imagem:Yulia Gapeenko/Vecteeze) Nos dias impetuosos, corro. Na esperança de que me seja devolvida a dignidade nos atalhos seguintes. Tem dias que, no ventoso planalto e cortando o silêncio, ouço com nitidez o assobio da espada. Termina sempre a viagem cravando-se-me no peito. A lâmina, rude e fria, abre os gomos ao sonho. «Não te percas no caminho. Nem te demores no abismo. Segue, de cabeça erguida e coração forte.» Afinal, entre o sonho e a derrota, o que vai é um solavanco. E, com o mantra em mente, caminho no silêncio com orgulho da minha fraqueza. Nas noites escuras, choro. Em prantos, no meio dos planaltos. Mergulhada na imensidão da minha angústia. Perdida na extensão do vazio. O eco devolve-me o soluço em forma de silêncio. A ruína, porém, é de uma beleza incomparável. Com um nobre e imponente traço, parece perdida entre a planície e o céu. E dá um tom poético ao infortúnio. Uma graça irónica ao destino lamentado. Mesmo derrotada e perfurada no peito, traz-me conforto o ...

O SEGREDO

Imagem
  Ninguém nos ensinou a amar. Invade uma abundância de bem-querer. Entra pelas portas da alma um desejo de entrelaçar as mãos. Corre nas veias uma ternura efervescente. E ninguém sabe como ou quando. É uma chapada invisível a deixar marcas na pele. É súbito o arrebatamento. Tão inesperado que nos rouba o chão e a visão. Sem regra, nem pudor. Sem fórmula, sem rigor. Não pede licença, nem se faz favor. Abraça-nos por inteiro, com fogo no coração. Alastra ao beijo e estende-se na boca. Passeia-se pelas mãos com a intimidade dos poentes. E o sonho nasce em plena luz do dia.     Amar é um segredo bem guardado. Entre quatro paredes blindado, nunca me fora contado. E, entre o espanto e o terror, estremeço diante do fulgor dos teus olhos. E agora tenho medo da partida e da ausência. Estás em todo lado, a toda a hora. És pensamento e palavra. Vontade e desejo. E perdi o rasto à minha liberdade desde que tomei a temperatura à tua pele. Desde então, és tu quem dá prumo aos...

A PARTÍCULA DA TERNURA

Imagem
  Ruim é fingir que dói a vida toda. Arrastando-se na pobreza de uma vida desgraçada, cobrindo de véu escuro o coração. A vida é sacana, mas não alastra a dor pelo esqueleto do tempo. Não é tear a compor de angústia a teia e a trama dos sonhos. A dor é passageira. Tão fugaz como uma estrela cadente. Tão veloz como o voo das andorinhas. Tão breve quanto a nesga de luz que afasta as nuvens. Então confia. Na força das águas que te arrastam, no poder do vento que te empurra e na luz do sol que te ilumina. Ruim é fingir que dói a vida toda. Não dói a saudade, nem a tristeza, tão pouco o amor. Porque não há fim que não possa ser serenado. A saudade é a felicidade impressa na memória. A tristeza é a alavanca dos sorrisos. O amor não devolvido é uma porta aberta para um amor verdadeiro. Toda a dor tem um reverso. Inclina os teus olhos para as estrelas. Abraça a bravura que trazes ao peito. Agarra-te ao fio de luz que brota do teu coração. A vida é como uma gota de orvalho: tão fr...

VAZIO – O TECIDO DO INSTANTE

Imagem
O vazio que habita em nós. Uma falta de tudo, sem saber de quê. Perdido e achado entre o espaço em branco das nossas vidas. O tecido do instante a cobrir de medo o rosto das gentes. Um vazio que mora na alma. Que se alimenta dos espaços solitários. Que rouba às horas o tempo comprido. E invade as salas trazendo a noite alta. Irrompe o coração trazendo piedade. Agarra-se aos sonhos. Adia a esperança dos dias maduros, prontos a colher. Faz-nos regressar ao ventre das ausências.   À casa desabitada. E torna-nos mendigos à procura do todo, que o nada é garantido. O vazio que nos consome. De tudo aquilo que não vivemos. Das incertezas que se acumulam. Dos tempos simples. Do coração exposto. E morremos um pouco mais, suspensos entre parênteses. O vazio do olhar num rosto materno e o reflexo na vidraça que medita na espera. Aguarda as horas vazias de emoção. E suspira no vazio dos sorrisos. E dos abraços não concedidos. E contempla o tempo do berço preenchido. Da abundância na p...