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A mostrar mensagens de novembro, 2022

Os Sapatos Vermelhos

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Aninhada, pois, na minha convicção, calcei os sapatos vermelhos para descascar as batatas para a sopa. A minha mãe diria que não aprendi nada. Contrariei a minha vontade pela pantufa e decidi dar uma oportunidade à “sensualona” escondida pelas camadas de pele. Se é confortável? Não. Nem o sapato, nem a personagem que evoco das entranhas. O salto torna-me mais alta que a bancada. Obriga-me a vergar as costas para que os olhos, melindrados pela miopia, possa avistar aquela nesga de casca teimosa.   Resisto. Persisto. Sinto-me a “tal” para as paredes da minha casa. As únicas testemunhas deste desvario. O fogão lança-me um esgar de fogo. Já atiçado pela minha sensualidade doméstica. Eu disfarço. Não é de bom tom colocar a panela ao fogo logo no primeiro olhar. Ele entra no jogo. Apaga-se por breve segundos. Como se o que vê não fosse gás suficiente para as suas bocas. Fingido! E sinto-me poderosa. Afinal, um salto faz toda a diferença. Até as batatas se descascam com ou...

PROPÓSITO

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  Os propósitos.   São as intenções que colocamos para a vida. Todos achamos que cada um de nós nasce com um. Que, juntamente com o primeiro sopro; o primeiro choro; o primeiro desvendar da retina, trazemos um propósito a acompanhar a alma. Eu teria uns cinco ou seis anos quando ouvi, pela primeira vez, falar de propósito. Recordo as rodas de madeira, o chão de pedra e a roca de fiar e, ao mesmo ritmo, a minha bisavó desfiava palavras sobre o seu propósito como uma tarefa a cumprir. Era uma tarefa do coração. Um destino a cumprir. Um objetivo de vida, sei-o agora, muito anos depois. A minha bisavó era uma mulher de estatura baixa, com um rosto marcado pela vida. A estatura não fazia jus à sua alma e ao seu coração. Viúva com vinte e poucos anos e um filho, o meu avô. Patrocinou-lhe uma vida honrada e permaneceu ali, como uma sentinela a zelar pela felicidade. - Minha filha, onde estiverem os teus sorrisos, constrói a tua casa. - disse-me, atirando ao fogo um tronco lar...

UMA GOTA D'ÁGUA

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    Já não sei se sou gente ou se sou água. Um corpo líquido a fugir-me pelos dedos. Que escorre em lembranças. Que flui com as memórias, tão belas e ornamentais. Que, de tão geniais, se agigantam. Algumas são lugares comuns e tão reais, outras distantes e baças. Serei água em corpo de gente? Que se esgota com a sede, que se retém com a chuva? Que se apaga e se transforma com o fogo? Tenho pernas como um rio que se expande até às margens. Tenho o mar nos meus cabelos, em horas tumultuosas. Trago a chuva nos meus braços que se evapora sobre a montanha. Os meus olhos são gotas de orvalho a pousar nas tuas pétalas. Tão puras e transparentes que se lê o coração. Trago o amanhecer no meu regaço, pronta a dar vida a um novo dia, a fazer florir novos campos e a abastecer os mananciais. Cada lágrima é uma gota que se infiltra e flui pelo solo, alimentando as nascentes. Em dias de tempestade escoam sobre a superfície como torrentes, motivando as enxurradas. Arrastam agitações a...

A GENTILEZA DE UM SORRISO

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Dos dias em que tudo é ausência. Que o frio tem nome de inverno e a alma se afunda na lama. Em que os teus, aqueles que carregas no coração, têm cara feia e palavras sem sol. E, urdidos na tua permanente gentileza, ousam atropelar-te com pensamento nu, despido de qualquer afeição. Dos dias em que o abraço faz falta. Que a paisagem tem feição de ruína e o peito é um deserto de mãos vazias. Em que toda a palavra te quebra e enfraquece, e o cansaço surpreende ao virar da esquina. Enterras o desânimo entre as colinas do teu pescoço. Faz-te sombra a solidão. Carregas o que te dói a cada passo. Calada. Silente. Sem um “ai”. Desejando que o instante seja veloz. Que um novo dia traga outro jardim. Que a pedra não seja um sapato. Que a sorte não seja um acaso. Dos dias em que a noite é longa. Confundem-te as vozes do silêncio. Estranha-te o sonho da felicidade. Aterroriza-te o fantasma da esperança. Umedece a palavra em oração. Porque é lenta esta empreitada e muito curta a ins...

ROSMANINHO

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  Sou rosmaninho… Sou alegre e espontânea. Sou flor do monte. E sou dos vasos a enfeitar varandas soalheiras. Não sou de rega. Sou condimento. Sou do sol. Sou do mar. Sou garrida. Sou perfume lançado ao vento a animar o olfato das paisagens. Sou cor a preencher o horizonte. Sou resistente. Sobrevivo em condições extremas com uma graça singular. Sou rosmaninho português. Não sou a elegância francesa, nem sou tão aprimorada. Sou despenteada, jovial e desengonçada. As minhas espigas floridas são palavras aromatizadas em instantes esmorecidos. Trago gentileza aos corações áridos e conhecimento aos incultos. Sou doce e perfumada. Sou da primavera e do tempo quente. Sou impulsiva. Sou de emoções. Sou de ramo nas mãos. Sou da romaria e da festa popular. Sou da tradição e dos poemas inspiração. Sou companheira de quem me quer bem. Sou matriz selvagem nos campos do teu país. Há quem me queira derrubar. Quem me chame erva daninha. Quem me veja como arbusto. São os olhos do orgulho....