A GENTILEZA DE UM SORRISO
Dos dias em que tudo é ausência.
Que o frio tem nome de inverno e a alma se afunda na lama. Em que os teus, aqueles que carregas no coração, têm cara feia e palavras sem sol. E, urdidos na tua permanente gentileza, ousam atropelar-te com pensamento nu, despido de qualquer afeição.
Dos dias em que o abraço faz falta.
Que a paisagem tem feição de ruína e o peito é um deserto de mãos vazias. Em que toda a palavra te quebra e enfraquece, e o cansaço surpreende ao virar da esquina. Enterras o desânimo entre as colinas do teu pescoço. Faz-te sombra a solidão. Carregas o que te dói a cada passo. Calada. Silente. Sem um “ai”. Desejando que o instante seja veloz. Que um novo dia traga outro jardim. Que a pedra não seja um sapato. Que a sorte não seja um acaso.
Dos dias em que a noite é longa.
Confundem-te as vozes do silêncio. Estranha-te o sonho da felicidade. Aterroriza-te o fantasma da esperança. Umedece a palavra em oração. Porque é lenta esta empreitada e muito curta a inspiração. Não te demores numa casa sem jardim, nem faças endereço num coração desabitado ou morrerás no fulgor da solidão. Percorre o teu caminho, mesmo sem fôlego para gozar da viagem.
Segues ansiosa que o fim esteja à espreita. Que os braços te venham roubar do frio estridente. E que a lua traga luz à escuridão. E, já exilada no peso dos ossos, surpreende-te o sorriso num rosto desconhecido. Paras o carro cedendo a passagem. Desfila a longa idade pelo tapete branco. Sorriso puro e agradecido. Singelo. Sorris de volta. Contagiada pela doçura.

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