LÁPIS DE CERA
Que saudades da minha infância.
Das
horas coloridas, mesmo nos dias cinzentos. Da simplicidade da língua, dos
laços, do afeto, do riso. Das luzes que empolgavam os meus olhos, fixos, como
laranjas presas ao galho. Da folha de papel em branco, pronta a ser nova
aventura. Encantar-me com as cigarras nas tardes ocas de verão. Em tudo achar
um tesouro, mesmo quando nada era de valor. Encontrar arte num rabisco. Da
ternura nas histórias da minha mãe. De rezar ao Anjinho da Guarda, de joelhos e
mãos unidas junto ao coração. De acreditar. Sobretudo, da pureza para
acreditar.
Que saudades dos dias sem memória.
Em
que tudo era novo e de experimentar. De estrear as horas, a neblina e os fios
de orvalho. Achar graça à arquitetura do vento, inquieto e difícil de agarrar. Descobrir
o valor das expressões. Um sorriso é felicidade. Uma lágrima é dor. Achar
poesia às ondas do mar. O vestido azul, o laço puro de cetim, o sapato de
verniz. É dia de domingo, afinal. O cheiro da terra e do eucaliptal. Os
tremoços, a regueifa e o “Pensal”. O tanque, o sol, os amigos e as gargalhadas.
O tempo perdido não existe. Tudo o que vejo a mim acrescento.
Que saudades das horas invencíveis.
Do
tempo sem o adeus e da vida sem limites. Dos berlindes do irmão, de jogar às
escondidas, à macaca e ao lencinho vai na mão. O tempo da alegria ingénua, de
inventar uma canção e trautear num dialeto pueril. O cheiro dos livros novos
com histórias por descobrir. As ruas, os lugares e as gentes que te conhecem
pela pinta dos pais. Como se o teu rosto pequenino fosse a moldura da tua
história. E, de espantado olhar, tudo é novo no que vejo.
Hoje, sou o azul do céu, o branco das nuvens e o dourado do sol.
Sou
a minha história, as minhas raízes e a minha infância.
Sou
o arco-íris desenhado a muitas cores.
Liliana Mesquita Machado

Que infância tão bem representada. Senti-a como minha. Brilhante! Obrigado, Liliana.
ResponderEliminarObrigada, Eduardo. :)
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