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A mostrar mensagens de fevereiro, 2024

METAMORFOSE DE UM CONDENADO

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  Nascemos condenados. Mas vivemos como se não o soubéssemos. Afinal, que graça tem a vida sem os filtros a limpar imperfeições. Mais vale cobrir essa nudez. Maquilhar a tristeza. Dar cor ao desânimo. Vestir de elegância as lágrimas. E sair para o mundo com outra identidade. Construir a narrativa. Criar a personagem e vender a exuberância da vida. E, fingindo não saber, sorri até que os teus lábios não conheçam outra forma. Dança até que os teus pés não conheçam outros passos. E permanece na aparência. E, cansada de fingir, segues vacilante na estrada que se desenha a teus pés. Exausta pelo peso tomado nos ombros. Perplexa com o que os teus olhos vêm à luz da verdade: uma pedra a desejar ser flor. Nascemos condenados. Mas não temos de viver como se não o soubéssemos. A vida é a oportunidade para te libertares da sentença. Cumpre com rigor a tua verdade. Espalha a fragrância da virtude sem o medo da rejeição. Tu não estás só neste caminho. Olha! Vê quantos condenados seguem...

MAPA DO TESOURO

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  É difícil encontrar-te. Não sei se existes, sequer. Fui deixada nesta ilha, nua e desabitada. Confesso, chorei à chegada. Entretanto, percorri os instantes; aprendi a matéria e o idioma, e a minha voz tornou-se madura. E sempre à tua procura. Pudesse eu ter um mapa que desvendasse este mistério. Não te conheço as feições nem os gestos, mas sei de cor o teu sabor. Perdoa-me se nada sei sobre a arte do encontro. Se me demoro na paisagem e atraso a minha chegada. Nem sei se me esperas, ainda! Prometo dar-me inteira ao tempo, percorrer o fulgor da lua cheia e descansar, apenas, quando despontar o teu sorriso ao entardecer. Estranha vontade, procurar-te. Como se fosses o princípio e o fim. Infiltrado no meu ser, enraizado na minha alma, exilado no meu coração. Como se a razão do encontro valesse a viagem. Deixa-me mostrar-te a primavera, o chão e as estrelas. Diz-me como se pronuncia o teu nome e ensina-me a chamar por ti. Não fiques em silêncio. Deixa marcas por onde passas,...

A BOCA DO POÇO

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  Demorei-me à janela. Deixei-me cativar pelos olhos. Perdi-me a contemplar o azul maculado. Entre mim e a janela só uma voz quebrava a contemplação rotineira e gasta. O murmúrio desafiava qualquer coisa interior. E gritava dentro de mim. «Ganha perspetiva. Recomeça. Fecha a janela. Abre as portas, de par em par. Ainda que não te levem a lado algum. Percorre todos os caminhos, até os mais ásperos. Confia na mão que se estende e no abraço que te espera. O filamento dos teus passos não é solitário, nem sombrio. Vai. Atravessa o horizonte em flecha. Cruza o céu em fúria.»   E o azul ganhara nova tonalidade. Mais belo. Mais nítido. Mais real! A janela onde regresso. Foi por ela que ouvi falar do mundo. Construí os sonhos. Tracei planos. Quieta, fiz grandes viagens. Descobri a noite e as estrelas. Senti o toque aveludado do sol. Vi a neve caiar as planícies. Aprendi o nome das coisas. E encontrei graça no silêncio da alvorada. Testemunhei o humor das estações. O nascer da...

NA RUA DO UNIVERSO

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  O céu coberto de estrelas. Quando uma se destaca, traz-me o teu nome à lembrança. Pulsa, então, a memória da infância e os laços que traçamos de uma só lufada. Era a pressa de viver os dias puros, construir uma história de instantes felizes e entregar a Deus a nossa jornada antes da partida. E o tempo tornou-se ainda mais longo na tua ausência. Já não há tardes de frutas maduras para o lanche. Nem açúcar para acalmar o choro de criança que, dentro do peito, ainda soluça. Foram-se os dias de verão a perder de vista. A espera. O abraço a saudar a chegada. As palavras gastas pela noite dentro e embaladas pela ânsia de encurtar a distância. A tua face é agora luz. A transparência que surge do silêncio. E eu escuto o teu brilho a dar conta da viagem. A falar-me das outras estrelas. Das constelações que, vigilantes, me acompanham até à madrugada. Da transcendência do amor que vence o espaço entre nós. E eu agarro-me à ausência para atravessar o deserto até à hora do encontro. ...