METAMORFOSE DE UM CONDENADO
Nascemos condenados.
Mas
vivemos como se não o soubéssemos. Afinal, que graça tem a vida sem os filtros
a limpar imperfeições. Mais vale cobrir essa nudez. Maquilhar a tristeza. Dar
cor ao desânimo. Vestir de elegância as lágrimas. E sair para o mundo com outra
identidade. Construir a narrativa. Criar a personagem e vender a exuberância da
vida. E, fingindo não saber, sorri até que os teus lábios não conheçam outra
forma. Dança até que os teus pés não conheçam outros passos. E permanece na
aparência. E, cansada de fingir, segues vacilante na estrada que se desenha a teus
pés. Exausta pelo peso tomado nos ombros. Perplexa com o que os teus olhos vêm
à luz da verdade: uma pedra a desejar ser flor.
Nascemos condenados.
Mas
não temos de viver como se não o soubéssemos. A vida é a oportunidade para te
libertares da sentença. Cumpre com rigor a tua verdade. Espalha a fragrância da
virtude sem o medo da rejeição. Tu não estás só neste caminho. Olha! Vê quantos
condenados seguem a teu lado com o mesmo dilema e na mesma condição. Deixa-te
cair. Permite-te levantar. Aceita a mão que se estende. Deixa que os teus olhos
encontrem outros olhos. E contempla com o coração a dor de outro coração.
Prepara as tuas mãos para ampararem as lágrimas que irrompem noutro rosto. Esse
é o gesto de ternura que traz o sorriso para o mundo.
Não condenes o mundo.
Deixa
que ele te veja pura e inteira. Para lá do casulo e com as asas abertas à luz
do sol. Não te extingas na aparência. Não julgues nem te deixes julgar. Não
condenes nem te deixes condenar. Há miséria no apontar do dedo. Há miséria na
desforra da acusação. Há miséria no terror das palavras.
Dá amor.
E
ele bastará ao mundo!
Liliana Mesquita Machado

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