PARA SEMPRE...

 

Fugi ao mais pequeno vestígio de avanço.
Foi sempre o medo o primeiro a arrebatar o coração, a conquistar terreno, a vencer a luta.

Fugi para não te ter diante de mim, a olhar-me à vista desarmada. Fugi-te ao crepúsculo dos dias, quando havia uma dança prometida. Desviei-me nas horas destinadas ao nosso encontro. Subtrai-me nos momentos em que o destino me oferecia glória diante de ti. Só as nossas curtas viagens eram um lugar seguro. Partilhávamos narrativas com a ilusão de que nenhum de nós se exprimisse na contemplação.  

Fugi-te nos longos raios do sol. Ando à deriva desde então. Suspensa entre estes dois mundos em que te tenho e não tenho. Sei que me visitas, entre as camadas da noite. Que me consomes lentamente de olhos fechados, enquanto dormes. Esse lugar imperfeito, onde as tuas mãos, embaladas na coragem, prendem o meu rosto. Os teus olhos entram nos meus. E, sem lados por onde fugir, os teus lábios tomam posse da minha alma. Beijo puro. Adormecido. Doce. Quebrado pelo ruído matinal. A noite enche o coração de miragens.

Fugi-te no estalo do tempo. Nas vezes todas que me procuraste. No estender da idade que se alastra. E o teu coração paciente, insistiu, perseverou, não desistiu. Mas eu escondi-me de ti, encolhida no fundo dos espelhos. Perdida entre os reflexos do que fomos e do que poderíamos ter sido. Com o olhar a velar a nossa história jazida no túmulo. Com as mãos vazias, cheias de nada… só o denso aroma da lembrança me sustenta.   

Fugi das palavras que te denunciavam, pronunciadas em cada folha do meu caderno, com desenhos entrelaçados a fingir ser corpo. Com o poema que roubaste para ser nosso. E num só verso desfiavas a transparência do teu afeto.  

Fugi-te para depois te procurar.
Na hora mais tardia das nossas vidas!

 Liliana Mesquita Machado

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