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PARA SEMPRE...

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  Fugi ao mais pequeno vestígio de avanço. Foi sempre o medo o primeiro a arrebatar o coração, a conquistar terreno, a vencer a luta. Fugi para não te ter diante de mim, a olhar-me à vista desarmada. Fugi-te ao crepúsculo dos dias, quando havia uma dança prometida. Desviei-me nas horas destinadas ao nosso encontro. Subtrai-me nos momentos em que o destino me oferecia glória diante de ti. Só as nossas curtas viagens eram um lugar seguro. Partilhávamos narrativas com a ilusão de que nenhum de nós se exprimisse na contemplação.   Fugi-te nos longos raios do sol. Ando à deriva desde então. Suspensa entre estes dois mundos em que te tenho e não tenho. Sei que me visitas, entre as camadas da noite. Que me consomes lentamente de olhos fechados, enquanto dormes. Esse lugar imperfeito, onde as tuas mãos, embaladas na coragem, prendem o meu rosto. Os teus olhos entram nos meus. E, sem lados por onde fugir, os teus lábios tomam posse da minha alma. Beijo puro. Adormecido. Doce. Queb...

DOS DIAS EM QUE FUI FELIZ

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  A Sofia tem sempre o mesmo pensamento à hora dos deveres: “Ah… na casa da avó Milai é que se está bem”. Há sol no mês de agosto e tardes demoradas com amoras acabadas de colher, e uma orquestra de grilos que ecoa no jardim em dias abafados e poeirentos.   Mas sabem o que há de hilariante na casa da avó Milai? A Nina Rosadinha… De repente, para a Sofia, rosa passou a ser a cor da amizade. A Nina tem personalidade forte e é muito aventureira. A avó Milai tem uma horta com muitos legumes. Certo dia, de manhãzinha, a Sofia calçou as galochas e foi com ela pela mão para ver a horta a crescer.     A Nina Rosadinha, apanhada pela emoção, desatou a correr na sua direção e,   sem escape ou travão, esbarrou na Sofia atirando-a para o chão.    Encostou o focinho rosado ao rosto de Sofia e, num ronco gargalhado, rebolaram pelo chão, sem tino e sem demora, esmagando o tomatal. A avó Milai lançou um “Ai… valha-se-me Deus”, mas o caldo “de tomate”...

Purgatório este?

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  Na ponta do chicote da vida ora colocamos Deus, ora o diabo. No banco dos réus sentamos um e outro, prontos a julgamento como culpados das cicatrizes que a nossa alma encerra. Feridas abertas, marcas do nosso lamento, provas da nossa desgraça medíocre.     E no alto do nosso drama… Oh Deus que me abandonaste. Oh diabo que me tentaste.   Nós? Nós somos isentos de culpa. Puros anjos injustiçados pela ira divina: ou a do altíssimo ou a das profundezas. Nós não temos vontade. Somos marionetas movidas a dedos que, engenhosamente, articulam um e outro ato só com o propósito de nos conduzir ao mau fado.   E… num vasto universo, existe apenas o nosso ego a ecoar para lá das estrelas, num latejar de lamento profundo, a cobrar a Deus porque nos deve e a gritar para o útero da terra, aquele lamaçal de lava a borbulhar pelo nosso pecado, exigindo ao diabo culpas pela indução. Pois nunca a nossa alma foi curiosa por si só para se atracar a um bom pecado e tomar o gosto a...

A VIAGEM

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  Entrei pela porta grande.  Talvez enfeitiçada pela música de caixa, daquelas que se abre e salta uma melodia que nos acalma e adormece.   Talvez estivesse à procura de quietude para a alma. Não sei.   O encantamento entrou pela aresta dos olhos, como se a menina em mim ousasse viver a aventura que se demora. Recordo que, quando tinha três anos, o meu pai resgatou-me do alto daquela girafa, como um prodigioso militar que empresta o colo à proteção divina. Já não me recordo o que causou temor ao meu peito, mas creio que ao ensejo tudo o que é novo assusta. Encorajada pela valentia da idade, ainda que trémula, resolvi enfrentar o abismo que a inocência fez emergir. E o burburinho enlaçado nos sorrisos de felicidade; o cheiro a churros acabados de fazer; o deslumbramento das luzes, como estrelas no céu a dourar o meu destino; fizeram-me saltar para o carrossel poético, animado pelo movimento circular. Ah… Quem me dera acontecer um encontro de cinema!  O amor mon...