Purgatório este?

 


Na ponta do chicote da vida ora colocamos Deus, ora o diabo.

No banco dos réus sentamos um e outro, prontos a julgamento como culpados das cicatrizes que a nossa alma encerra. Feridas abertas, marcas do nosso lamento, provas da nossa desgraça medíocre.   

E no alto do nosso drama… Oh Deus que me abandonaste. Oh diabo que me tentaste. 

Nós? Nós somos isentos de culpa. Puros anjos injustiçados pela ira divina: ou a do altíssimo ou a das profundezas. Nós não temos vontade. Somos marionetas movidas a dedos que, engenhosamente, articulam um e outro ato só com o propósito de nos conduzir ao mau fado. 

E… num vasto universo, existe apenas o nosso ego a ecoar para lá das estrelas, num latejar de lamento profundo, a cobrar a Deus porque nos deve e a gritar para o útero da terra, aquele lamaçal de lava a borbulhar pelo nosso pecado, exigindo ao diabo culpas pela indução. Pois nunca a nossa alma foi curiosa por si só para se atracar a um bom pecado e tomar o gosto ao que há de bom. E que culpa temos nós, afinal? Se tudo o que é prazeroso é insano. A culpa é de Deus que nos coloca desafios maiores que a coragem ou do diabo que se expõe no ombro direito a debitar intentos ao ouvido, tão repetidamente que cega a nossa intuição com o cheiro das coisas lascivas.

Deus e o diabo, o céu e o inferno, já são um ritual imposto, criados só para expiar a nossa grandeza. Somos vítimas. Choramos e lamentamos. Protestamos até ao vómito.  Arrancamos das entranhas o nosso queixume só para expor ao tribunal a prova do nosso infortúnio.

E perdemos a vida toda na lamúria. Debruçados sobre a choradeira.

Procurando o culpado pela dor. 

Aqui, neste mundo… esquecemos que somos um entre muitos.

Que a única proposta que se apresenta é viver para ser feliz. 
 
Liliana Mesquita Machado

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