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A mostrar mensagens de maio, 2022

Purgatório este?

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  Na ponta do chicote da vida ora colocamos Deus, ora o diabo. No banco dos réus sentamos um e outro, prontos a julgamento como culpados das cicatrizes que a nossa alma encerra. Feridas abertas, marcas do nosso lamento, provas da nossa desgraça medíocre.     E no alto do nosso drama… Oh Deus que me abandonaste. Oh diabo que me tentaste.   Nós? Nós somos isentos de culpa. Puros anjos injustiçados pela ira divina: ou a do altíssimo ou a das profundezas. Nós não temos vontade. Somos marionetas movidas a dedos que, engenhosamente, articulam um e outro ato só com o propósito de nos conduzir ao mau fado.   E… num vasto universo, existe apenas o nosso ego a ecoar para lá das estrelas, num latejar de lamento profundo, a cobrar a Deus porque nos deve e a gritar para o útero da terra, aquele lamaçal de lava a borbulhar pelo nosso pecado, exigindo ao diabo culpas pela indução. Pois nunca a nossa alma foi curiosa por si só para se atracar a um bom pecado e tomar o gosto a...

A Maçã

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Sobre o pedaço que te falta…   Roubei-o com os lábios cansados pela espera da palavra madura. Nem era tempo de colheita. Mas, com as pontas dos dedos a salivar, colhi-te da árvore mais rica do pomar.   - Sê paciente! Há uma primavera imensa a prometer a cor dos frutos.   Mas que dizer? Que a gula foi mais valente e corajosa, e precipitou o meu desejo pela tua doçura suculenta. Soltei o meu delírio e percorri a tua face redonda, admirando a beleza da perfeição. Tentei a resistência por breves segundos, prolongando o estado de fogo em ebulição e da loucura a alastrar pelos cabelos.   Desinquietaste-me lá do alto do teu pedestal onde te encontravas. E da tua boca cintilavam as noites de verão a pedir refrescos de hortelã para acudir à minha sede. Desafiaste o meu sossego. E o meu pecado brotou das flores que as abelhas beijaram. Ainda trago vestígios de pólvora. Sou culpada pelo crime e tu pela cumplicidade. Roubei-te o pedaço que falta. Trago-o comigo na memória me...

Lugar oculto

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  Um dia acordei para te ver à janela. Naquele lugar oculto, onde os sonhos são espuma a enrolar na areia e os dois somos uma só sombra debaixo do mesmo sol. Inflamo o peito quando te vejo de passagem, em cena tão lenta, que o próprio vento não te sabe acompanhar. E os meus olhos fingem um outro alvo só para iludir o teu mistério. E o sorriso de soslaio traz um travo a água-ardente a descer pelo peito, como se o medo fosse um incêndio em processo de combustão, a consumir toda a minha alma.   Na minha imaginação moram as tuas palavras que soam lá do alto daquela colina, abençoada pelo alinhamento estelar. Elas trazem poentes e exílio, pronunciadas em tom arfado e rouco, num sussurro quase mudo a roubar a minha paz. Para explicar os excessos à minha retina, garanto o encontro debaixo da brisa costeira, dentro da concha vazia, com os meus olhos a caberem nos teus, como se fosses lar eterno. Como se o destino fosse viver os dias todos à janela, até ao dia em que as n...

O SALTO DOS LOBOS

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    Morre-se quando a lua cheia desponta no alto da escuridão.    Pois já muitas luas ditaram o tempo e fizeram os dias e as noites girar. E morre-se um pouco mais quando, no covil, tem por morada a crueldade, a inveja e a luxúria. As gentes são feitas de raízes. Vivem e criam pé num lugar só. Agarram-se à terra sem o lamento de traçar outras viagens. Uma aldeia perdida no sopé da montanha. Perdida no desenho geográfico e na súbita lentidão. Fria e distante. Com gente dentro. Gente que vive em alcateia. Preparada para o ataque ao mais pequeno vestígio de impureza. A menina Graça tem alma de demónio. Vive como quer, desafiando as leis e a imposição das famílias da aldeia. É impura, apesar de se chamar Graça. E vive separada, na solidão das paredes da casa mais afastada da povoação. É libertina, dá asas à ilusão masculina, veste-se com a pele a descoberto. É alvo de murmúrio no ajuntamento domingueiro à porta da igreja, e de olhares viscerais que lhe radiografam...