O SALTO DOS LOBOS
Morre-se
quando a lua cheia desponta no alto da escuridão.
Pois já muitas luas ditaram o
tempo e fizeram os dias e as noites girar. E morre-se um pouco mais quando, no
covil, tem por morada a crueldade, a inveja e a luxúria.
As gentes são feitas de raízes. Vivem e criam pé num lugar só. Agarram-se à terra sem o lamento de traçar outras viagens. Uma aldeia perdida no sopé da montanha. Perdida no desenho geográfico e na súbita lentidão. Fria e distante. Com gente dentro. Gente que vive em alcateia. Preparada para o ataque ao mais pequeno vestígio de impureza.
A menina Graça tem alma de demónio. Vive como quer, desafiando as leis e a imposição das famílias da aldeia. É impura, apesar de se chamar Graça. E vive separada, na solidão das paredes da casa mais afastada da povoação. É libertina, dá asas à ilusão masculina, veste-se com a pele a descoberto. É alvo de murmúrio no ajuntamento domingueiro à porta da igreja, e de olhares viscerais que lhe radiografam os gestos, só para encontrar nela uma centelha onde soprar fumo.
Em o Salto dos Lobos a noite é tão gelada como um cinzel, afiada às línguas de sombra que se calam quando um raio de sol desponta. A noite da Lua do Lobo é em janeiro e assinala a primeira lua cheia do ano. O frio quebra-se com as línguas de fogo que desenham o caminho até à grande fogueira, acesa por tradição. Cada habitante representa o lobo que simbolicamente tem dois lados: o bem e o mal. Cada um, diante da fogueira, decide o lobo que devolve às chamas para queimar. Os habitantes não se abeiram, exibindo hipocrisia.
Fitou Graça em confidência.
E a profecia acontece.
Liliana Mesquita Machado

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