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A mostrar mensagens de julho, 2022

ROSA DOS VENTOS

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  Ainda dou comigo a ver-te em pensamento.      A visitar-te.  A ficar à porta do coração, aguardando o teu semblante à janela, só para aquietar a saudade. Perdida. Entre dois mundos. Sem saber qual o propósito da viagem. Que pedras trilhar. E quanto mais perdida entre brumas e arvoredos, mais encontro o sentido para existir. Um sentido que tem o teu nome, com pronúncia de fogo dentro. És a volta completa do horizonte. Representas os quatro sentidos. Os pontos cardeais. Orientas os meus pontos medianos, secundários e principais. És luz no peito a bater feito farol. A traçar a linha que me conduz para norte, sem me desviar do sul, sem criar distância do oeste... Ah… mas confesso que, às vezes, estou a leste, sumida entre as fragilidades do meu pensamento. Mas cada quadrante é um braço teu a puxar-me para um destino, o teu colo, a nossa casa. Ajusto o rumo de acordo com as estações. Quem sabe não me surpreendes ao sol da primavera? Ameno e temperado,...

ABRIGO

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O sal tempera. O açúcar adoça.   As ervas aromáticas… ah, são o jardim da tua cozinha.    E por ordem, vamos colocando a jeito tudo o que dá sentido ao teu dia. Às vezes, trocam-se de lugar de forma misteriosa. Já não discutimos quando acontece. Pensamos as duas que são os espíritos em segredo, a trocar as voltas à lua.    - Queres café acabadinho de fazer? - Não, mãe. Acabei de tomar café.    Cada empreitada exige uma lista. Começou com as coisas que ficavam por trazer. Primeiro julguei ser uma desculpa para voltares ao mercado para mais uma hora de conversa com as gentes conhecidas. Depois entendi que te incomodava e confundia os olhos cada vez que abrias a sacola e percebias que deixaras algo para trás, perdido nesse emaranhado de ideias.    - Queres café acabadinho de fazer? - Não, mãe. Acabei de tomar café. As gentes conhecidas dizem-me que te baralhas nos rostos. Confundes os nomes. Trocas as alcunhas. Perdeste...

O SONHO

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  Não sei quem te inventou na palavra. Sei que todas as manhãs nasces no pensamento e, ainda o sol não deu dois passos, já estás pronto e aprumado nos meus lábios. E trinco as pétalas que trazes nas mãos. E cerro os dentes para prender as estrelas que sobram da noite anterior. Guardo no peito a doçura das horas luminosas, só para lembrar-te mais tarde, quando ao meio-dia já tenho fome de um pedaço teu. Pudesse eu existir inteira nas tuas noites que seria dispensável o encontro furtivo na imaginação. Quem nunca sonhou ter-te assim ao luar? De modo tão delicado que até os nossos braços se transformam em ternura. Longe de ti não me sustento. Desfaleço. Sou uma alma sem propósito. Sou um ser cambaleante. Errante, até. Ó vida suspensa por um fio. Foste tu que me trouxeste neste ritmo tão imperfeito. Que viagem tão ébria me fez aqui chegar? Em caminho de solavancos, ao pé-coxinho e inclusive a tropeçar. Estou cansada desta jornada. Deixa-me voltar a sonhar. Já fui rio a des...