O SONHO

 

Não sei quem te inventou na palavra.

Sei que todas as manhãs nasces no pensamento e, ainda o sol não deu dois passos, já estás pronto e aprumado nos meus lábios. E trinco as pétalas que trazes nas mãos. E cerro os dentes para prender as estrelas que sobram da noite anterior. Guardo no peito a doçura das horas luminosas, só para lembrar-te mais tarde, quando ao meio-dia já tenho fome de um pedaço teu.

Pudesse eu existir inteira nas tuas noites que seria dispensável o encontro furtivo na imaginação. Quem nunca sonhou ter-te assim ao luar? De modo tão delicado que até os nossos braços se transformam em ternura. Longe de ti não me sustento. Desfaleço. Sou uma alma sem propósito. Sou um ser cambaleante. Errante, até.

Ó vida suspensa por um fio. Foste tu que me trouxeste neste ritmo tão imperfeito. Que viagem tão ébria me fez aqui chegar? Em caminho de solavancos, ao pé-coxinho e inclusive a tropeçar. Estou cansada desta jornada. Deixa-me voltar a sonhar. Já fui rio a desaguar no mar. Extenso areal a beijar o céu. E pensei que tudo era garantido. Sofri de assalto às mãos do tempo. Fui roubada à luz das horas. E foi assim que te perdi o rasto.

Tornei-me náufraga no meu próprio pranto. Naveguei as minhas tempestades. Sempre só, sem uma mão. Sem a âncora de um abraço amigo. A vida é um barco solitário. Muitas vezes à deriva, sem bússola e sem mapa.

Ah… Lembro-me agora quem te inventou na palavra.

Foste a minha criação em hora de aflição. Queria ter-te por companheiro, na mais distinta perfeição.

Meu doce engano, deita-te de novo a meu lado, porque a noite já vai alta.
E eu quero lembrar-te pela manhã. 
 
Liliana Mesquita Machado

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