A TEMPESTADE
Entreguei-me à solidão para fugir do ruído da humanidade. Aquela réplica estugada de lamentos em oratória de quem quer fazer-se um oprimido dignificado. Há quem me atire as pedras. Quem me julgue egoísta. Quem me classifique com a frieza. Crio a distância, porque entrego a alma ao pó de onde venho. Porque tenho as minhas próprias tempestades. E vivo como um pântano, enterrado em lodo, com a cabeça à superfície a tentar respirar. Eu sei… a vida é um fruto carunchoso. Trago ainda nos ombros o sal que restou das marés revoltosas. Entro em casa e dispo o capote, querendo libertar-me das partículas salgadas e brancas como a neve. Sento-me no cadeirão gasto. Não trago as palavras. Fico ali, em silêncio. Com as paredes a meia luz, a fingir que vivo. E a minha casa tonou-se na minha caverna, o lugar onde estou exilado. Levanto-me só para descer à cave onde guardo o meu tesouro. Alinhadas na horizontal, todas chamam por mim, como se o amor cingisse o vício. Não perco tempo na ...