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A mostrar mensagens de junho, 2022

A TEMPESTADE

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  Entreguei-me à solidão para fugir do ruído da humanidade. Aquela réplica estugada de lamentos em oratória de quem quer fazer-se um oprimido dignificado. Há quem me atire as pedras. Quem me julgue egoísta. Quem me classifique com a frieza. Crio a distância, porque entrego a alma ao pó de onde venho. Porque tenho as minhas próprias tempestades. E vivo como um pântano, enterrado em lodo, com a cabeça à superfície a tentar respirar. Eu sei… a vida é um fruto carunchoso. Trago ainda nos ombros o sal que restou das marés revoltosas. Entro em casa e dispo o capote, querendo libertar-me das partículas salgadas e brancas como a neve. Sento-me no cadeirão gasto. Não trago as palavras. Fico ali, em silêncio. Com as paredes a meia luz, a fingir que vivo. E a minha casa tonou-se na minha caverna, o lugar onde estou exilado. Levanto-me só para descer à cave onde guardo o meu tesouro. Alinhadas na horizontal, todas chamam por mim, como se o amor cingisse o vício. Não perco tempo na ...

A VIAGEM

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  E o raio das horas que se atropelam.   Doeram-se-lhe as ansiedades, porque os ponteiros adiantados lembram-lhe que o tempo é escasso. Inês chegou ao aeroporto carregada de malas cheias de sonhos. Olhou as partidas, mas o que viu foi um rosto conhecido.   Estremeceu-lhe a fragilidade.  Lembrou-se que aquele rosto, muitas vezes, a fizera sorrir num tempo que conjuga verbos no passado. Espiou-lhe as pegadas. Nervosa, de olhar atento ao movimento, fez deslizar o corpo até à extensa fila. Segurava hesitante um destino nas mãos, para o mostrar à hospedeira de terra que marcava o ritmo e a extensão da fila. Nova Iorque estava à distância das milhas a pairar sobre o céu. Entrou no avião. Percebeu que o rosto, outrora amado, seguiria viagem com o mesmo destino. O coração deu de si em três ou quatro pulos. Quase que saiu pela boca. Durou alguns segundos. Sentou-se no lugar marcado. Raul não estava perto. Perdeu-lhe o rasto à entrada, sem perceber onde se sentara. Não bas...

AS SOMBRAS

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  A alma é um lugar estranho. Um espaço onde às vezes faz sol e outras, tão de repente, faz soar o terror dos relâmpagos a cair no monte, acompanhado pelas gotas de chuva, torrenciais, como este ímpeto de partir para um lugar desconhecido. Tão depressa estamos a voar envolvidos nas asas do mundo, como num ápice descortinamos a espada no meio da plumagem para desferir o golpe da morte.  É de uma natureza desconcertante. Incompreendida, até. É como se o coração fosse uma arena onde lutam dois gladiadores: a alegria e a tristeza. Nunca sabemos quem sai vencedor. E cá dentro o espetáculo acontece sem intervalos. Com uma plateia ávida de sangue, sem desejar aplaudir um entendimento, e que os dois estendam a mão e se fundam no equilíbrio. Os olhos perdem a luz para dar lugar ao obscuro. Os sorrisos desvanecem e o silêncio entra no sangue, percorrendo cada quilómetro de veia. E tudo dói. Até a ponta do cabelo. E a mente é um quarto vazio. Sem o eco das gargalhadas. Sem a es...