A TEMPESTADE

 

Entreguei-me à solidão para fugir do ruído da humanidade.

Aquela réplica estugada de lamentos em oratória de quem quer fazer-se um oprimido dignificado.

Há quem me atire as pedras. Quem me julgue egoísta. Quem me classifique com a frieza.

Crio a distância, porque entrego a alma ao pó de onde venho. Porque tenho as minhas próprias tempestades. E vivo como um pântano, enterrado em lodo, com a cabeça à superfície a tentar respirar.

Eu sei… a vida é um fruto carunchoso.

Trago ainda nos ombros o sal que restou das marés revoltosas. Entro em casa e dispo o capote, querendo libertar-me das partículas salgadas e brancas como a neve. Sento-me no cadeirão gasto. Não trago as palavras. Fico ali, em silêncio. Com as paredes a meia luz, a fingir que vivo. E a minha casa tonou-se na minha caverna, o lugar onde estou exilado.

Levanto-me só para descer à cave onde guardo o meu tesouro. Alinhadas na horizontal, todas chamam por mim, como se o amor cingisse o vício. Não perco tempo na escolha, pois a um perdido, qualquer gota é um elixir. As minhas mãos agarram-te pela cintura, despem-te o vestido de cortiça e deixa o teu corpo nu exibir-se no copo. Fico ali, a prolongar o desejo de saborear-te num gole. Afinal, a um devasso, perdido por cem ou perdido por mil. Tanto faz. Decido, então, deixar-te invadir a minha boca e conduzir-me no meio da tormenta. A partir dali a minha jornada é turba e confusa, mas é sempre no meio do nevoeiro que te vejo melhor. Mais nítida.

E adormeço assim, encostado aos teus braços, a minha âncora no meio da tempestade. 

Boa noite.
Amanhã encontramo-nos de novo, no epicentro da neblina. 
 
Liliana Mesquita Machado

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A CORAGEM DOS VALENTES

AMOR, É TARDE

LÁPIS DE CERA