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A mostrar mensagens de junho, 2023

O AVESSO DO MUNDO

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  O avesso do mundo é o lugar onde vives. Tão fatídica tem sido a hora do nosso encontro. No lugar errado e à hora errada, estamos os dois à vez. Ora eu, à tua espera. Ora tu, aguardando a minha chegada. Na infelicidade do encontro, lá vamos percorrendo caminho cometendo enganos. Amamos outros a achar que é destino. Mas o destino és tu. Sou eu. Somos nós a dar sentido ao silêncio e à vida. E Deus, no seu plano repleto de sabedoria, lá se vai rindo pela nossa falta de talento para a orientação. Houvesse um GPS para te encontrar e, ainda assim, pela tática perversa da sorte, e a minha predisposição para desajeitar, iria parar à rua de trás. Nas costas da tua casa, no lugar contrário ao avesso do mundo. Amo-te sem saberes. Sem te conhecer, sequer.   Desenho-te o rosto, imagino-te as feições. Percorro o teu corpo. E guardo-te assim, em memória, para te reconhecer quando a lua apontar um só caminho aos nossos pés. Invento-te um sorriso. Malandro, mas repleto de alvorada. Fala...

O MEU TEMPO

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  "Espelho, espelho meu, haverá alguém mais belo e eterno do que eu?" Que vida ousa exigir tal reflexo? Traços de juventude, beleza e paixão momentâneas surgem a delinear o espelho. Porque não para, então, o tempo naquele retrato de gozo e vaidade? Nesse instante mágico tão precioso, fantástico e arrepiante? É mudo o espelho onde se ocultam as mentiras. E cegos são os olhos que fingem desconhecer a reprodução quase fiel dos meus gestos. Onde está o peso dos meus ombros? Porque se escondem as marcas das minhas derrotas? E as lágrimas que assomam nas desventuras? É a consciência que me decifra no embuste. É o meu rosto que ainda procuro no reflexo do que fui. E assim permaneço… Timidamente à espera por ti. Sentada na margem do rio, a contemplar o tempo que flui. Observo o curso da vida que corre com pressa de desaguar. E é tão veloz que o presente é já memória. E são os sonhos que resgatam a intemporalidade. São permanentes e eternos. E dão à idade o infinito. Mesmo que...

A HISTÓRIA DE UM COMETA

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  Era uma vez um pequeno corpo gelado a vadiar pelo universo. Sozinho, perdido na imensidão do escuro, disperso pelo horizonte. Sem esplendor e sem brilho. Na ponta dos pés trazia o sonho de ser um astro apinhado de luz a rasgar o céu. Era de fluorescência a cor do sonho. E, quando sonhava com muita força, os seus pés deixavam um vestígio cintilante, imediatamente, engolido pelo areal negro. Não chegava a ser luz. Era um brilho escasso e efémero. Era uma ponta de esperança a morrer na tristeza.   Viajou anos-luz à deriva e sem propósito. Perdeu-se nas órbitas excêntricas e viu-se afundado na sua própria melancolia. Sentiu-se o fantasma de um cometa extinto. Porém, apanhado pela maré galáctica, impulsionado pelo sonho há muito adormecido, ousou passar ao largo do Sol. Desafiou a sorte. Içou as velas e aproveitou o vento solar. Aqueceu o seu pequeno corpo gelado. O seu coração agora pulsa e cintila. E, ao virar do Sol, em pranto por tamanha ousadia, voltou os olhos par...