O MEU TEMPO
"Espelho,
espelho meu, haverá alguém mais belo e eterno do que eu?"
Que vida ousa exigir tal reflexo? Traços de juventude, beleza e paixão momentâneas surgem a delinear o espelho. Porque não para, então, o tempo naquele retrato de gozo e vaidade? Nesse instante mágico tão precioso, fantástico e arrepiante? É mudo o espelho onde se ocultam as mentiras. E cegos são os olhos que fingem desconhecer a reprodução quase fiel dos meus gestos. Onde está o peso dos meus ombros? Porque se escondem as marcas das minhas derrotas? E as lágrimas que assomam nas desventuras? É a consciência que me decifra no embuste. É o meu rosto que ainda procuro no reflexo do que fui. E assim permaneço…
Timidamente à espera por ti. Sentada na margem do rio, a contemplar o tempo que flui. Observo o curso da vida que corre com pressa de desaguar. E é tão veloz que o presente é já memória. E são os sonhos que resgatam a intemporalidade. São permanentes e eternos. E dão à idade o infinito. Mesmo que a dor rasgue de sulcos a pele. E que as estações venham ditar a passagem das horas. Engano o tempo. Porque a idade que tenho é de menina em busca de estrelas. E é de velha em busca de memórias. E é do que fui, do que sou e do que serei. E é porque vivo por extenso que me perco no infinito.
Ah TEMPO! Maldito tempo! Teimoso, persistente e dono de si próprio! TIC! TAC! TIC! TAC! TIC! TAC! Giram, velozmente, os ponteiros que param em frente à porta da morte. Desespero! A meia-luz encandeia cada forma, cada pontinho do rosto que se regozija a olhar ao espelho. Belo e solitário. Exausto e sublime. Cai a máscara! Tudo acaba! Tudo! Eterna só a verdade que se esconde por detrás do pano! Atrás de ti! Dentro de ti! No outro!

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