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A mostrar mensagens de agosto, 2022

SIMPLICIDADE

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  Gosto de coisas simples.   E pessoas? Oh, pessoas simples roubam-me o chão e levam-me pela mão no primeiro gesto de gentileza. A simplicidade traz confiança nas ondas a desmaiar na arrebentação. E é na turbulência do marulho que o braço singelo vem resgatar a calmaria das horas. Pessoas simples trazem o sol na ponta da língua. E fazem sair raios de luz pela boca. São mágicos sem manipulação. A simplicidade não tem matemática. Não cria problemas. Desmistifica. Desconstrói. Não tem medida ou peso. E é tão leve, ainda assim. É gesto de ternura na brandura do toque. É saber-se rico na intuição e, sem porquê ou quando, seguir no impulso que faz sorrir. É falar uma só língua.    Pessoas simples confiam sem nesga de hesitação. Não julgam pela aparência. Não se ofuscam pelos rótulos. Não se apresentam com títulos. Não dizem o que trazem nem quanto valem os seus bolsos. São surdos a egos. Não fazem eco da sua beleza. Pessoas simples são seres evoluídos, que tr...

LOUVA-A-DEUS

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Quedo na cortina da janela do meu quarto. Surpreendeu-me, enfim, vê-lo ali, tão distante dos prados. Estava em posição de oração, a trazer-me notícias de Deus. Não se assustou. Não tombou em movimentos de ataque. Permaneceu imóvel. Em exaltação de paz. Em aflição, como ficam os Homens perante o desconhecido, sacudi ao vento a textura fina e transparente. No íntimo dizia-lhe: vai em liberdade. Regressa a casa. Mas a missão não ficaria completa sem a mensagem. Ficou suspenso. Em louvor. Acalmei o arfado gesto de libertação. Cerrei os olhos. Imitei a sua postura. Ouvi o íntimo afago pousado no ouvido. Eramos dois monges em meditação. Lado a lado. Eu reproduzia o seu poiso contemplativo. Com as mãos sobre o peito. Voltadas ao divino para me procurar. Pernoitou ali. Velou-me o sono. Presenteou-me com a sua proteção divina. Um anjo de manto verde a guardar a janela da escuridão. Um guardião sem espada. Afastando o vestígio de impureza. Espalhou sortes pelas paredes e esperança ...

SEDE DE AREIA

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  O vento tocava a pele e ajeitava o cabelo. Era seco e estendia-se pelo horizonte dourado. À sua frente, só as altas montanhas de areia que, em intervalos, se levantava em partículas, como finas cortinas, para tombar, graciosa, mais à frente. A imagem assemelhava-se a uma amante a estender o corpo sedutor ao lado do seu amado. Aos ombros, carregava os vasos de água cheios de sede. Sagrada. Pura. Imprópria para os lábios que se consomem em pecados. Arrastava o corpo embaciado com a moleza das agitações. À volta, só a solidão fazia eco. O calor e a luz levantavam vagas sequiosas e a alma cobria-se das tempestades repentinas. O calor dilatava-se no batimento enfraquecido do músculo. A travessia colocava à prova a existência tépida. Dali sairia ou morria. Tolhida pela superioridade tórrida, deixava-se enganar pelos olhos. A alucinação conduzia ao êxtase que morria logrado na humilhação. Levantava-se e sacudia a areia do manto branco. A falta de mácula era agoiro para a d...