SEDE DE AREIA
O vento tocava a pele e ajeitava o cabelo.
Era seco e estendia-se pelo horizonte dourado. À sua frente, só as altas montanhas de areia que, em intervalos, se levantava em partículas, como finas cortinas, para tombar, graciosa, mais à frente. A imagem assemelhava-se a uma amante a estender o corpo sedutor ao lado do seu amado.
Aos ombros, carregava os vasos de água cheios de sede. Sagrada. Pura. Imprópria para os lábios que se consomem em pecados. Arrastava o corpo embaciado com a moleza das agitações. À volta, só a solidão fazia eco. O calor e a luz levantavam vagas sequiosas e a alma cobria-se das tempestades repentinas.
O calor dilatava-se no batimento enfraquecido do músculo. A travessia colocava à prova a existência tépida. Dali sairia ou morria. Tolhida pela superioridade tórrida, deixava-se enganar pelos olhos. A alucinação conduzia ao êxtase que morria logrado na humilhação. Levantava-se e sacudia a areia do manto branco. A falta de mácula era agoiro para a devoção em si mesma. A expiação trazia o discernimento. Em desespero, a alma cai em estremeço e entra em comiseração.
E é quando o sol cai, em desmaio espaçoso, que o deserto, enfim, se mostra no seu plano mais profundo. A areia reflete-se no céu. São pequenos fragmentos de luz a mostrar orientação. O manto radioso vem cobrir de sensações o corpo cansado da viagem. Sente-se protegida. Como se o universo todo estivesse em oração, a velar o seu repouso. À noite, o calor é semelhante a si mesma… um desalojado. O espírito arrefece.

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