LOUVA-A-DEUS
Quedo na cortina da janela do meu quarto.
Surpreendeu-me, enfim, vê-lo ali, tão distante dos prados. Estava em posição de oração, a trazer-me notícias de Deus. Não se assustou. Não tombou em movimentos de ataque. Permaneceu imóvel. Em exaltação de paz.
Em aflição, como ficam os Homens perante o desconhecido, sacudi ao vento a textura fina e transparente. No íntimo dizia-lhe: vai em liberdade. Regressa a casa. Mas a missão não ficaria completa sem a mensagem. Ficou suspenso. Em louvor. Acalmei o arfado gesto de libertação. Cerrei os olhos. Imitei a sua postura. Ouvi o íntimo afago pousado no ouvido. Eramos dois monges em meditação. Lado a lado. Eu reproduzia o seu poiso contemplativo. Com as mãos sobre o peito. Voltadas ao divino para me procurar.
Pernoitou ali. Velou-me o sono. Presenteou-me com a sua proteção divina. Um anjo de manto verde a guardar a janela da escuridão. Um guardião sem espada. Afastando o vestígio de impureza. Espalhou sortes pelas paredes e esperança pelo coração. Tornou vasto o sonho entontecido e fez-me semente a geminar na terra húmida. Nasci de novo sem os lamentos do dilatado ressoar. Tornou fértil o campo talhado para os meus pés, abrindo espaço à concretização, arando a imaginação para receber as sementes que haveriam de crescer saudáveis e dar frutos.
Trazia-me lições para o dia que havia de amanhecer. Encheu-me de habilidades para enfrentar as dificuldades e os desafios que encontraria pela frente. Chegara a hora de aprender mais sobre o tempo e a existência. A importância da quietude para inflamar por extenso as conquistas em ascensão. Que, guiar-me pelo meu instinto natural e perceção do mundo exterior, vai garantir-me corajosa para permanecer de pé nas adversidades.
Quando os raios de luz romperam pela vidraça, trazendo os primeiros sinais de alvorada, soltou-se do franzido mostrando sinais de que a sua missão estaria cumprida. Abri a janela.
Ele partiu num impressionante voo rasante!
Liliana Mesquita Machado

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