AS SOMBRAS

 

A alma é um lugar estranho.

Um espaço onde às vezes faz sol e outras, tão de repente, faz soar o terror dos relâmpagos a cair no monte, acompanhado pelas gotas de chuva, torrenciais, como este ímpeto de partir para um lugar desconhecido.

Tão depressa estamos a voar envolvidos nas asas do mundo, como num ápice descortinamos a espada no meio da plumagem para desferir o golpe da morte. 

É de uma natureza desconcertante. Incompreendida, até. É como se o coração fosse uma arena onde lutam dois gladiadores: a alegria e a tristeza. Nunca sabemos quem sai vencedor. E cá dentro o espetáculo acontece sem intervalos. Com uma plateia ávida de sangue, sem desejar aplaudir um entendimento, e que os dois estendam a mão e se fundam no equilíbrio.

Os olhos perdem a luz para dar lugar ao obscuro. Os sorrisos desvanecem e o silêncio entra no sangue, percorrendo cada quilómetro de veia. E tudo dói. Até a ponta do cabelo. E a mente é um quarto vazio. Sem o eco das gargalhadas. Sem a esperança de um candeeiro a desenhar a beleza das sombras nas paredes brancas. Sim, porque na solidão, até as sombras são divinas companheiras. Ouvem sem julgamento. Sem bisbilhotice. Sem pudor. Ouvem e atiram os desabafos, em sussurro, para o vácuo, libertando do desespero. E dão um abraço invisível, tão necessário como o pão para a boca. E, nesse abraço, diminui-se o abismo que rasga as entranhas e abre o peito ao mundo, escancarando a fraqueza aos fortes, exibindo a fragilidade da dor escondida e envergonhada. Porque é uma dor sem nome. É um macaco no sótão. É uma existência sem motivo.

Não é covardia. É um ato de amor próprio. Reconhecer que existimos na dualidade. Que a alegria não existe sem a tristeza. Que o que a torna bela é atravessar o corredor da solidão, sem perder de vista a maior grandeza que existe dentro de cada um.

A essência.  

Liliana Mesquita Machado

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