A VIAGEM

 

E o raio das horas que se atropelam.

 
Doeram-se-lhe as ansiedades, porque os ponteiros adiantados lembram-lhe que o tempo é escasso. Inês chegou ao aeroporto carregada de malas cheias de sonhos. Olhou as partidas, mas o que viu foi um rosto conhecido.
 
Estremeceu-lhe a fragilidade. 
Lembrou-se que aquele rosto, muitas vezes, a fizera sorrir num tempo que conjuga verbos no passado. Espiou-lhe as pegadas. Nervosa, de olhar atento ao movimento, fez deslizar o corpo até à extensa fila. Segurava hesitante um destino nas mãos, para o mostrar à hospedeira de terra que marcava o ritmo e a extensão da fila. Nova Iorque estava à distância das milhas a pairar sobre o céu. Entrou no avião. Percebeu que o rosto, outrora amado, seguiria viagem com o mesmo destino. O coração deu de si em três ou quatro pulos. Quase que saiu pela boca. Durou alguns segundos. Sentou-se no lugar marcado. Raul não estava perto. Perdeu-lhe o rasto à entrada, sem perceber onde se sentara.

Não basta ter o mesmo destino ou estar no mesmo lugar. É preciso vontade para se fazer cumprir a sorte. E, tantas vezes, há vontade, mas existe medo. Cada um carregando o seu, se deixa ficar no mesmo lugar. Outros levantam-se com tanta decisão, que até a coragem espanta as folhas caídas no chão, por decisão da vida. É uma força invisível que move o todo.

Tantas horas nas nuvens tolheram-lhe o entendimento. Já nem sabia se estava a ser traída pela ilusão ou se a realidade se fixara ali, aguardando sentença. 

A vida lembra-nos que as oportunidades são sacanas. Existem às pequenas quantidades. São edições limitadas. Custe o que custar. É obrigatório investir. Inês levantou-se. Enfrentou a turbulência e percorreu o corredor estreito. Com ela seguiam a ansiedade e o medo. Não lhes deu vez e passou-lhes à frente.

No lugar 4E estava a luz do rosto que nunca lhe saiu da memória. Inês tomou o lugar vazio a seu lado. Raul sorriu e pegou-lhe na mão trémula. Para que o destino se cumpra há que lembrar que somos o comandante do nosso próprio avião. 

O amor sossega. A viagem prossegue. 

 Liliana Mesquita Machado

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