ABRIGO
As gentes conhecidas dizem-me que te baralhas nos rostos. Confundes os nomes. Trocas as alcunhas. Perdeste o rasto à linhagem familiar neste pedaço de chão onde viveste uma vida toda. Cheia. Feliz. Conquistadora. Perguntam-me se estás bem. Porque repetes, uma e outra vez, algumas conversas. Um dia… outro dia… e um terceiro. Foste ao pão porque não havia em casa. Rimos as duas às gargalhadas. Afinal o cesto já não tinha espaço para tanto pão. Com o excesso, o qual chamamos sobras, fizemos mexidos de Natal em pleno Maio. E fingimos as duas… que era Natal e… que tudo estava bem.
- Queres café acabadinho de fazer?
Sozinha, entre os meus pensamentos, suplico que não chegues a esquecer que o teu colo é o meu abrigo. Que não fujam as lembranças de uma história que construímos juntas. E é tão doloroso ver-te ir embora. Lentamente. Desesperadamente. E perdoa-me a impaciência. É porque me dói ver os teus olhos vagos, a tua pele sem luz, a tua alegria desvanecida.
A memória é feita de caminhos escarpados.
- Queres café acabadinho de fazer?

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