ABRIGO


O sal tempera. O açúcar adoça. 
As ervas aromáticas… ah, são o jardim da tua cozinha. 
 
E por ordem, vamos colocando a jeito tudo o que dá sentido ao teu dia. Às vezes, trocam-se de lugar de forma misteriosa. Já não discutimos quando acontece. Pensamos as duas que são os espíritos em segredo, a trocar as voltas à lua. 
 
- Queres café acabadinho de fazer?
- Não, mãe. Acabei de tomar café. 
 
Cada empreitada exige uma lista. Começou com as coisas que ficavam por trazer. Primeiro julguei ser uma desculpa para voltares ao mercado para mais uma hora de conversa com as gentes conhecidas. Depois entendi que te incomodava e confundia os olhos cada vez que abrias a sacola e percebias que deixaras algo para trás, perdido nesse emaranhado de ideias. 
 
- Queres café acabadinho de fazer?
- Não, mãe. Acabei de tomar café.

As gentes conhecidas dizem-me que te baralhas nos rostos. Confundes os nomes. Trocas as alcunhas. Perdeste o rasto à linhagem familiar neste pedaço de chão onde viveste uma vida toda. Cheia. Feliz. Conquistadora. Perguntam-me se estás bem. Porque repetes, uma e outra vez, algumas conversas. Um dia… outro dia… e um terceiro. Foste ao pão porque não havia em casa. Rimos as duas às gargalhadas. Afinal o cesto já não tinha espaço para tanto pão. Com o excesso, o qual chamamos sobras, fizemos mexidos de Natal em pleno Maio. E fingimos as duas… que era Natal e… que tudo estava bem.

- Queres café acabadinho de fazer?

- Não, mãe. Acabei de tomar café.

Sozinha, entre os meus pensamentos, suplico que não chegues a esquecer que o teu colo é o meu abrigo. Que não fujam as lembranças de uma história que construímos juntas. E é tão doloroso ver-te ir embora. Lentamente. Desesperadamente. E perdoa-me a impaciência. É porque me dói ver os teus olhos vagos, a tua pele sem luz, a tua alegria desvanecida.  

A memória é feita de caminhos escarpados.

E eu vou percorrer cada um à tua procura. Sem te largar a mão. Sem que a morte nos separe.

- Queres café acabadinho de fazer?

- Sim, mãe. Bebemos as duas para acompanhar com os mexidos. 
 
Liliana Mesquita Machado

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