Lugar oculto
Um dia acordei para te ver à janela.
Naquele lugar oculto, onde os sonhos são espuma a enrolar na areia e os dois somos uma só sombra debaixo do mesmo sol.
Inflamo o peito quando te vejo de passagem, em cena tão lenta, que o próprio vento não te sabe acompanhar. E os meus olhos fingem um outro alvo só para iludir o teu mistério. E o sorriso de soslaio traz um travo a água-ardente a descer pelo peito, como se o medo fosse um incêndio em processo de combustão, a consumir toda a minha alma.
Na minha imaginação moram as tuas palavras que soam lá do alto daquela colina, abençoada pelo alinhamento estelar. Elas trazem poentes e exílio, pronunciadas em tom arfado e rouco, num sussurro quase mudo a roubar a minha paz.
Para explicar os excessos à minha retina, garanto o encontro debaixo da brisa costeira, dentro da concha vazia, com os meus olhos a caberem nos teus, como se fosses lar eterno. Como se o destino fosse viver os dias todos à janela, até ao dia em que as nossas mãos se conhecem e se encaixam, se reconhecem de outras viagens marítimas, a quebrar tempestades. E é de sonhos que se constrói a nau da nossa jornada. Firme, inquebrável, pura e robusta, só para sobreviver às monções e à passagem das ondas seculares.
E quando, frente à minha janela, suspendes o corpo no alto da colina voltada para o mar, sei que trazes impressa na lembrança a estrada azul até ao infinito. Sentes a nostalgia de um nome que ainda não conheces. E que a saudade tem sabor a sal na pele.
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