DOS DIAS EM QUE FUI FELIZ

 

A Sofia tem sempre o mesmo pensamento à hora dos deveres:

“Ah… na casa da avó Milai é que se está bem”.

Há sol no mês de agosto e tardes demoradas com amoras acabadas de colher, e uma orquestra de grilos que ecoa no jardim em dias abafados e poeirentos. 

Mas sabem o que há de hilariante na casa da avó Milai?

A Nina Rosadinha… De repente, para a Sofia, rosa passou a ser a cor da amizade. A Nina tem personalidade forte e é muito aventureira. A avó Milai tem uma horta com muitos legumes. Certo dia, de manhãzinha, a Sofia calçou as galochas e foi com ela pela mão para ver a horta a crescer. 

 

A Nina Rosadinha, apanhada pela emoção,
desatou a correr na sua direção e, 
sem escape ou travão,
esbarrou na Sofia atirando-a para o chão. 
 

Encostou o focinho rosado ao rosto de Sofia e, num ronco gargalhado, rebolaram pelo chão, sem tino e sem demora, esmagando o tomatal. A avó Milai lançou um “Ai… valha-se-me Deus”, mas o caldo “de tomate” já estava todo entornado.

Sofia desconhecia qual a sorte destinada à sua amiga Rosadinha.

Havia a tia Lúcia, avançada na idade casadoira, mas com promessa de noivado para esse ano. O jantar estava já anunciado… com leitão garantido no menu. Mal ouviu de soslaio, desdobrou-se em artimanhas para salvar a amiga de triste fado. Numa noite, escura como o breu, fugiu com a Nina para lugar seguro. Pediu retiro para a amiga no curral do Sr. Mendonça, explicando-lhe o sucedido. Até à véspera do noivado, estava a Nina em parte incerta, causando alvoroço na casa da avó Milai.  

Sem poder esconder mais, Sofia confessou o crime por amor. Desesperou-se a tia Lúcia por causar tamanha dor.

Amizade é coisa rara que vive no coração.

Livrou Nina da morte certa e Sofia da solidão. 
 
Liliana Mesquita Machado

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