A BOCA DO POÇO
Demorei-me
à janela.
Deixei-me
cativar pelos olhos. Perdi-me a contemplar o azul maculado. Entre mim e a
janela só uma voz quebrava a contemplação rotineira e gasta. O murmúrio
desafiava qualquer coisa interior. E gritava dentro de mim. «Ganha perspetiva. Recomeça.
Fecha a janela. Abre as portas, de par em par. Ainda que não te levem a lado
algum. Percorre todos os caminhos, até os mais ásperos. Confia na mão que se estende
e no abraço que te espera. O filamento dos teus passos não é solitário, nem
sombrio. Vai. Atravessa o horizonte em flecha. Cruza o céu em fúria.»
E
o azul ganhara nova tonalidade. Mais belo. Mais nítido. Mais real!
A janela onde regresso.
Foi
por ela que ouvi falar do mundo. Construí os sonhos. Tracei planos. Quieta, fiz
grandes viagens. Descobri a noite e as estrelas. Senti o toque aveludado do
sol. Vi a neve caiar as planícies. Aprendi o nome das coisas. E encontrei graça
no silêncio da alvorada. Testemunhei o humor das estações. O nascer das rosas.
A extinção dos amores-perfeitos.
E
aprendi sobre a vida e a morte!
Fechei
os olhos e a janela.
Sustentei
o grito de glória. Sou do mundo agora. Orgulho-me da coragem e agarro-me aos
detalhes que os meus olhos cativaram. Conto os passos suspensos na surpresa. Tragos
os sonhos construídos à janela. Vou florir com as rosas e morrer com os
amores-perfeitos. E, nesse entretanto, vou resgatar os beijos roubados à meia
luz. Vou ser o ritmo das planícies. Vou sorrir com a primavera e carpir no
inverno. Vou chamar as coisas pelo nome, contar as estrelas e voar no silêncio
da madrugada. Vou ser a abundância prometida das paisagens. O sorriso profundo a
inundar as marés. Um sopro de vida a acontecer.
E,
por fim, de mim se desprende a janela!
Liliana Mesquita Machado

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