UMA GOTA D'ÁGUA

  

Já não sei se sou gente ou se sou água.

Um corpo líquido a fugir-me pelos dedos. Que escorre em lembranças. Que flui com as memórias, tão belas e ornamentais. Que, de tão geniais, se agigantam. Algumas são lugares comuns e tão reais, outras distantes e baças. Serei água em corpo de gente? Que se esgota com a sede, que se retém com a chuva? Que se apaga e se transforma com o fogo?

Tenho pernas como um rio que se expande até às margens. Tenho o mar nos meus cabelos, em horas tumultuosas. Trago a chuva nos meus braços que se evapora sobre a montanha. Os meus olhos são gotas de orvalho a pousar nas tuas pétalas. Tão puras e transparentes que se lê o coração. Trago o amanhecer no meu regaço, pronta a dar vida a um novo dia, a fazer florir novos campos e a abastecer os mananciais. Cada lágrima é uma gota que se infiltra e flui pelo solo, alimentando as nascentes. Em dias de tempestade escoam sobre a superfície como torrentes, motivando as enxurradas. Arrastam agitações ao leito da minha alma, onde se depositam, causando a erosão. E esta força que me arrasta, que me leva a parte incerta, desagua no cansaço. Já não me distingo deste ruído transparente.

 
Sou água, certamente.
Sou aquela que se evapora e regressa à atmosfera, para se deixar cair novamente. Sou a parcela que dá vida a uma semente. Sou o vapor e a neblina. O mistério e a emoção. Sou um gole de água numa floresta noturna. O êxtase e a aflição. Sou o conteúdo de um copo meio cheio. O estado líquido em perfeita ebulição. É por mim que o teu cântaro vai à fonte. Sou a sede da tua razão. E já não sei se sou gente ou se sou água.
 
Ah! Se eu nem sei quem sou,
Como poderei sequer saber onde pertenço?
 
Liliana Mesquita Machado

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