PROPÓSITO


 Os propósitos. 
São as intenções que colocamos para a vida. Todos achamos que cada um de nós nasce com um. Que, juntamente com o primeiro sopro; o primeiro choro; o primeiro desvendar da retina, trazemos um propósito a acompanhar a alma.

Eu teria uns cinco ou seis anos quando ouvi, pela primeira vez, falar de propósito. Recordo as rodas de madeira, o chão de pedra e a roca de fiar e, ao mesmo ritmo, a minha bisavó desfiava palavras sobre o seu propósito como uma tarefa a cumprir. Era uma tarefa do coração. Um destino a cumprir. Um objetivo de vida, sei-o agora, muito anos depois. A minha bisavó era uma mulher de estatura baixa, com um rosto marcado pela vida. A estatura não fazia jus à sua alma e ao seu coração. Viúva com vinte e poucos anos e um filho, o meu avô. Patrocinou-lhe uma vida honrada e permaneceu ali, como uma sentinela a zelar pela felicidade.

- Minha filha, onde estiverem os teus sorrisos, constrói a tua casa. - disse-me, atirando ao fogo um tronco largo de madeira e acrescentou - Coloca na lareira os teus sonhos e aquece a alma. Enche o copo de felicidade e bebe, gole a gole, como quem saboreia uma colheita singular. O teu lar é onde moram os teus sorrisos e onde se demora o teu coração.

Os meus tenros cinco ou seis anos sorriram de forma ingénua e, de certa forma, tão ignorante. Mas entendi que a sabedoria da minha bisavó também tinha uma intenção: preparar-me para o meu próprio propósito. Que o tempo era curto. Que era urgente passar-me o conhecimento. Que a afeição ou amizade é um destino. Que as tarefas a que nos propomos devem ser aprazíveis. Que um abraço é eterno. Que os laços são inquebráveis.

 Ela continuou ao ritmo da roca de fiar:

- Perdemos o equilíbrio quando descuidamos o olhar do nosso propósito. A vida é uma corda bamba, devemos olhar em frente sem piscar. Distrair o olhar pode custar a queda. 

 

A minha bisavó morreu uma semana depois do meu avô.
Entendi que o seu propósito estaria cumprido.
Que havia garantido e cumprido a sua promessa de vida.
Era hora de descansar e abraçar o filho sem as perturbações da alma. 
 
Liliana Mesquita Machado

 

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