Os Sapatos Vermelhos
Aninhada, pois, na minha convicção, calcei os sapatos vermelhos para descascar as batatas para a sopa.
A minha mãe diria que não aprendi nada.
Contrariei a minha vontade pela pantufa e decidi dar uma oportunidade à “sensualona” escondida pelas camadas de pele. Se é confortável? Não. Nem o sapato, nem a personagem que evoco das entranhas. O salto torna-me mais alta que a bancada. Obriga-me a vergar as costas para que os olhos, melindrados pela miopia, possa avistar aquela nesga de casca teimosa.
Resisto. Persisto. Sinto-me a “tal” para as paredes da minha casa. As únicas testemunhas deste desvario. O fogão lança-me um esgar de fogo. Já atiçado pela minha sensualidade doméstica. Eu disfarço. Não é de bom tom colocar a panela ao fogo logo no primeiro olhar. Ele entra no jogo. Apaga-se por breve segundos. Como se o que vê não fosse gás suficiente para as suas bocas. Fingido!
E sinto-me poderosa. Afinal, um salto faz toda a diferença. Até as batatas se descascam com outro desenrolar. Sentem-se nuas. Sem vergonha! O frigorífico descongela enquanto desfilo na passerelle que vai da bancada ao fogão. Alimento a malandra que se desvenda. O vinho também quer dedicar-me atenções. Salta-lhe a rolha e, perfumado, deixa-se cair em graça conquistando o meu sentido. Troco o avental. Não combina com o sapato. Afinal, há todo um protocolo a seguir. O fogão, ciumento, não quer fazer-se esquecer. Vingativo, queima toda a minha dedicação, mesmo em lume brando, para doer mais. A varinha quer momentos mágicos. «Vamos dançar?» – propõe sem recato. Eu aceito. Ligo o rádio. Deixo o som vibrar pela veia até sair pelos ombros embalados pela sonoridade. Na loucura, noto que os pratos se deixam quebrar pelo ritmo e juntam-se à festa. Os garfos já se enrolam com as colheres. O fogão cede, finalmente, e propõe-me um jantar a dois.

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