VAZIO – O TECIDO DO INSTANTE

O vazio que habita em nós.

Uma falta de tudo, sem saber de quê. Perdido e achado entre o espaço em branco das nossas vidas. O tecido do instante a cobrir de medo o rosto das gentes. Um vazio que mora na alma. Que se alimenta dos espaços solitários. Que rouba às horas o tempo comprido. E invade as salas trazendo a noite alta. Irrompe o coração trazendo piedade. Agarra-se aos sonhos. Adia a esperança dos dias maduros, prontos a colher. Faz-nos regressar ao ventre das ausências.  À casa desabitada. E torna-nos mendigos à procura do todo, que o nada é garantido.

O vazio que nos consome.

De tudo aquilo que não vivemos. Das incertezas que se acumulam. Dos tempos simples. Do coração exposto. E morremos um pouco mais, suspensos entre parênteses. O vazio do olhar num rosto materno e o reflexo na vidraça que medita na espera. Aguarda as horas vazias de emoção. E suspira no vazio dos sorrisos. E dos abraços não concedidos. E contempla o tempo do berço preenchido. Da abundância na pronúncia da palavra «mãe». Cheia. Redonda. Plena. A entoar nas paredes (agora) silenciadas. E quando um filho chega, o vazio desaparece. Porque é a demora que desenha o abismo.

O vazio que nos condena.

Perdemos o lugar que nos pertence. Somos a palavra obscura e a ausência dos sentidos. E fogem-nos aqueles que amamos. Perdidos para o vazio do universo. Nas mãos um punhado de histórias a compor a amplitude da vida despojada. Somos carência e solidão. Vivemos na ânsia da procura. E nada nos detém e satisfaz. Nem nós sabemos o que buscamos. É uma dor que fermenta e destrói. E, assim, somos cegos perante o tanto que já temos. E seguimos caminho preenchendo as lacunas.

O vazio és tu.

Que não vês a alma que habita em ti!
 
Liliana Mesquita Machado

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