LENTIDÃO
O passo apressado marca a primavera da vida.
Ah! Tudo a florir… na prontidão de quem se acha muito novo para amar e muito velho para aproveitar o sopro que é existir.
O tacão marca o compasso na pedra quadrada, cinzenta e gasta. Já tantos passos apressados se ajeitaram naquele caminho, sempre com o mesmo ritmo, sem demora e sem fôlego. Como se o amanhã fosse uma meta tão distante que, na demora, não há tempo para sentar e apreciar a Primavera.
Maria Inês gosta de sentar-se àquela mesa.
A observar. A olho nu. Expia de olhos frenéticos um e outro par de pés que marcha sobre a calçada. Levanta os olhos só para dar rosto às bases. É como desenhar uma casa. O esboço de Maria Inês começa sempre pelo alicerce. A parte que sustenta o peso. E há pés que sustentam o mundo. Outros o inferno. Alguns escalam nuvens de algodão. E outros palmilham por aí, desnorteados como o tio Albertino em noites de alegria celestial.
Maria Inês está ali, sentada à mesa, sorvendo o êxtase dos imbecis que desfilam pelo palco. Numa altivez cega. Incapazes de olhar em volta para abrandar a ira da viagem.
Para onde seguem tão sedentos de chegada? – pergunta aos botões Maria Inês.
Desce pela garganta o travo amargo do café. Lento. A traçar cada milímetro de grão, como se toda a Colômbia fosse sabor. A mesa de Maria Inês é uma sala de contrastes. Como se a alma contrariasse os medrosos. Que correm todos na mesma direção. Com a mesma cadência enervante.
Reconhecendo-se escancarada na multidão, salta da manada. Senta-se à mesa e permite-se adiar a chegada. Às vezes é preciso avaliar o rasto e calcular o próximo passo.
Maria Inês gosta de sentar-se àquela mesa. Para colocar-se à prova: por onde vagueias? Estarás perdida entre as horas e os lugares comuns?
Ah… A Maria Inês…

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