NEM SEMPRE SÓ

 

A solidão é um telhado de estrelas.

Um copo meio cheio ocupa uma mão, a saudade apodera-se da outra. E, assim, com as mãos cheias de nada, vivo e respiro num mundo que não me pertence. É um sossego inquietante. Uma paz forjada só para trazer à alma a ilusão de felicidade.

Às vezes parece que te perco no meio da multidão. E invento uma sombra junto ao areal, só para ouvir a música das ondas a quebrar. A dar ritmo ao silêncio onde me instalei. Por ti ousei ser maior do que sonhei e mais forte do que nasci. Por ti inventei as palavras. Dei voz ao fado e fiz nascer o sol todas as manhãs. Por ti virei o mundo ao contrário e fiz girar o ponteiro no inverso. E pudessem as horas ser de minha posse, que o futuro chamar-se-ia passado e o mundo estaria invertido… e os dois seríamos um a inventar a eternidade.

E a ausência seria um vazio sem existência. Um buraco negro perdido no universo. Um nada sem poder para te levar.

Deixem-me sequer a esperança de que, no mar, haverá sempre espuma e sal para alimentar as torrentes dos meus olhos. Que o vento sairá sempre em meu favor para secar as lágrimas da saudade. Que a noite vai cair sempre à mesma hora para me levar ao teu colo.

Promete-me que as fontes darão sempre de beber à minha luz. Que as colheitas darão de comer à minha fé. E que, um dia, subiremos de mãos dadas às colinas de algodão que se desenham lá no céu. 

E o fim terá como destino os teus cabelos.

E em vão saberei que não vivi.  
 
Liliana Mesquita Machado

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