FUI O QUE SOU
Sou um sonho de verão prometido.
Levado ao teu sono em noites de inverno. E acordas com vontade de ser poeta. Mágico. Ilusionista. Só para enganar o tempo e fazer derreter o manto de neve que se estende na colina. Parar o escarcéu. Aplacar a tempestade.
Sou a papoila que se deixa ao vento. Parada e em movimento. Com o caule a baloiçar, como quem ameaça fugir. Ainda assim, presa até à raiz, sem sair do lugar. Já despida. Sem a beleza do vestido encarnado. Arrancado pelo vendaval dos teus anseios. Desprendem-se as pétalas para se tornarem livres. E vejo, a uma distância sossegada, cada uma encapelar-se nas ondas do vento, sem rumo. Soltas.
Sou o tempo e o espaço deixado ao acaso. Esquecido pela mão divina numa casa que me estranha. Que se entranha. Que se escapa. Que se perde à saída da porta do quarto para o corredor da vida. E aproveita o espaço para dançar a valsa. Abraçada a si mesma. E nos giros que o corpo dá, os olhos alcançam novos horizontes. E confiante. Do alto dos seus saltos. Avança segura de que o abismo é sempre o destino. Ainda assim, sorri. Porque há uma nova esperança em cada passo. Para recomeçar. Para renascer e reinventar-se.
Sou um corpo invisível neste e noutros mundos. Sem lugar. Sem melodia. Ermita sobre mim mesma. Que vagueia ferida na alma. As lágrimas que me restam, economizo-as. Para outras dores. Aquelas que estão por vir. Porque são infinitas e certas. Algumas nem são minhas, mas invadem-me o espírito e agarram-se à minha carne, sugando-me o sangue. Exausta, pouso as asas num encosto. Com as mãos sobre os joelhos. Esfrego a solidão. Quieta. Muda. Contemplativa. E deixo-me ficar por breves momentos.

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