A RAIZ

 

Dormia o sossegado abraço das horas.

Para lá dos olhos fechados havia um mundo novo a renascer. A luz e a espuma consagradas num só céu. O coração saía-me do peito, como uma criança que pula com a alegria singela de um pião. Invade-me o leve aroma das amêndoas. Há gargalhadas a ecoar nos meus pés e um longo caminho enfeitado por ciprestes. Murmuravam entre si um idioma abafado. E as suas coroas dançavam lentamente a melodia tremular dos suspiros apaixonados.

Dei duas voltas ao ninho. As minhas asas soltaram-se destemidas. Em queda livre vi o mundo em perspetiva. O instante há de poisar nas pétalas finas dos roseirais fluídos. Intenso o silêncio nítido que escorre pelos dedos. E o mistério esmorece. Afinal é a vida a acontecer, alheia ao eco dos prantos em ousadia. Sei de onde venho e a quem pertenço. A equação difícil de resolver é quem sou e para onde vou. Irra… que me afundo na procura de solução.

É simples se pensar com o coração. E estende-se o nácar do caminho a meus pés. Abre-se em linha reta a estrada fina da abundância. E o amor espera-me no horizonte prometido. Pelo trilho vou semeando gentileza e esperança. Para os que hão de vir pelo mesmo itinerário. Nesta passagem, basta deixar o rasto de um jardim a florir. Ser poente para o futuro navegado. Ter no gesto a delicadeza de uma primavera em ascensão.

Para trás fica o derramado delírio da razão. Trouxe-me até aqui. Por maneiras que nem eu sei dizer. Sábia e conselheira, mostrou-me a dispersa encruzilhada que eu quero evitar. Assinalei-a, porque sei que não sigo só. Vou com o entusiasmo que eu não quero que se perca. Daqui até ao fim.

Dormia o sossegado abraço das horas.
Para lá dos meus olhos abertos está um novo mundo que eu quero fazer renascer. 

Liliana Mesquita Machado

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