MEMÓRIAS

 

As horas que a torre teima em exaltar…

Que eco tão desgostoso que me arranca debaixo da figueira.

Trago os pés gastos, porque não tenho sola que conquiste chão, nem vestidos novos para exibir às beatas à porta da igreja, ao domingo.

Trago antes o cheiro de pobreza encrostado no tecido roto pelo uso excessivo e já estreado por outras figuras que nem distingo.

Sabem o que é ter sonhos?

Eu não!

Volta e meia lá vou sentindo o gosto, enquanto me debruço a comer figos. Sonho uma ponta de luz que não chega a revelar-se de concretização. E desponta logo a voz maternal com recados a despachar, porque ter 10 anos neste tempo de enganos, é ter idade para lidar com a vida. Com a marmita aquecida e os pés descalços, corro o sopro das horas para chegar a tempo do almoço. Os irmãos precisam de reforço para a consumição das obras. Na volta, rapo os tachos das sobras… que ainda não almocei. Valeu-me os figos a forrar o bucho. Um dia, depois de tanto rapar o tacho, que nada tinha a oferecer, trinquei um grilo que, tal como eu, foi ao fundo com a barriga oca. 

Na vizinhança fazem a dança da roda. Eu lá me vou espiralando devagarinho para ver se me cai a sorte de entrar na roda. Não me deixam. Não trago a dignidade das roupas ilustres, nem dos cabelos ajeitados. É o alinhamento da minha tenra idade, nascida e pouco criada numa família numerosa. E assim se desvenda a ponta do meu destino. Às vezes, lá me sento na escadaria com as mãos a esfregar o desalento.

A minha mãe, sem muito pão para a boca, pôs-me nas mãos a arte da agulha. E na minha tenra idade, dei vida e cor aos panos brancos e puros como a minha ilusão.

 
Pedi-lhe a bênção…
E lá fui eu tecer a minha felicidade até então. 
 
Liliana Mesquita Machado

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