A ESPADA

E a espada caiu sobre os meus pés.

Perfurou a raiz e rasgou a minha dignidade. Há por aí tantos corações cansados, como o meu. A palpitar no desgaste das horas, sem a exaltação da bravura na conquista, consumido entre o passado e o futuro, esquecendo-se que hoje é que vale. Arranquei a espada com as mãos trémulas. Ouvi o assobio impiedoso do metal a roçar a matéria. A dor é tão sonora. Que o grito latejante ecoa para lá das muralhas, onde se esconde a minha razão.

Já não sou quem nasci. Sou outra. Trago o fardo do tempo fustigado no rosto. Rotas profundas a marcar a minha pele. Sinais das emoções colocadas na entrega. A espada, a cada passo, trespassa um pedaço de mim. E, no mesmo compasso, arranco-a cada vez mais com precisão. O tempo é mestre. Traz conhecimento para manusear a espada com sabedoria. Empunhar a saliva para selar o golpe. Estancar o gemido à saída dos lábios.

É quando a alma suspira exausta, com o corpo a retalho e a face estendida na poeira, que a coragem surge de súbito para estender a mão à confiança. Ergue-se, então, do chão a honra. Permanece de pé perante a cura. A espada é apenas o cinzel que rasura a minha alma. Gravuras a contar a velha moral dos longos dias de amargura. Na vida temos sempre duas opções: permanecer ou partir. É a nossa decisão que nos define e não o contrário. Quem permanece é âncora agarrada ao fundo do mar. Quem parte é livre com peito aberto a bramir à tempestade. 

 
Afinal, a vida é a espada de dois gumes.
Posso deixá-la ferir-me de morte e assim alcançar o descanso dos eternos.
Ou posso arrancá-la do peito e empunhá-la nas minhas conquistas.
 
Obstinada na liberdade à luz do sol…
Recai a escolha pelo gume mais difícil. 
 
Liliana Mesquita Machado

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