ESSÊNCIA

 

Cobri de renda a lassidão da alma.

As plumas espalhadas pelo chão e o glamour estendido sobre os pés. Despi-me, enfim, das lantejoulas douradas, refletidas nos pingos de mel fixos no meu corpo. Eram espelho a espiar-me por dentro. Descubro conforto num tinto que encontrou vertigem num copo balão. Sento-me no velho cadeirão. Herança que conta outras tantas histórias semelhantes. 

 
Seguro o copo pela mão. Faço descer o sorvo dos infiéis e entro em reflexão…
O pecado é ter nascido mulher. A desvirtuar-se do fado que lhe estava destinado. A ousar entrar em cena sem cumprir obrigação. Obstinada em lançar-se no seu próprio voo. A usar as asas da liberdade e seguir rumo desconhecido. É, precisamente, na turbulência do sopro que encontro a adrenalina para o sangue. Encaro, desde tenra idade, a ténue existência como viajante. Caminho. Observo. Experimento. Não coleciono objetos nem pessoas. Vou construindo memórias e deixando um rasto de gratidão. Em todos os meus estados fui amada intensamente. Desejada na mesma proporção.

Serei sempre a perdida na solidão, sem saberem, de antemão, que estou bem achada na minha nobre circunstância. Serena no meu feito poético. Equilibrada na minha emoção. Que nada espero que venha ou que não venha ou que, sequer, esteja por vir. Porque o mistério é aceitar as pedras no caminho e deixar-me invadir pela beleza da paisagem. O resto é alheio. É a distância que se cria entre nós e os sonhos. Entre desejar a felicidade e ser, verdadeiramente, feliz. 

Colho o dia como fruto maduro e provo a suculenta mordedura. Afinal, a minha única virtude é, ao mesmo tempo, o meu único pecado. Sou mulher a viver o instante. A desviar-se da sua previsível trajetória. A penar na sua vida inglória.  

 
Sou a demora. A incompleta. A alegria e o silêncio.
A fragrância das estações. A palavra mais bonita nos sonetos e canções. 
 
Liliana Mesquita Machado

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