INSANIDADE
Insana é a minha sensatez.
Na invenção das páginas que vou escrevendo, largando destinos diversos a cada capítulo, acumulo as histórias que os outros rejeitam. É louca! Gritam palavras prontas a saltar da ponta do abismo. Nunca fui o que os outros desejam. Fui outra. Fui várias. Sou versões sem máscara e sem reflexo. Edições limitadas que existem enquanto o tempo for mestre e que terminam quando o sorriso ameaça desvanecer.
Julgaram-me louca enquanto fui vista a dançar ao meu próprio ritmo a música que os outros, surdos à genialidade, eram incapazes de ouvir. Além de surdos, continuam cegos na tormenta e a insistir na pobreza da normalidade. Nessa insanidade lá vou dando a volta ao universo, colhendo as flores que a vista dos torpes não alcança. Os que fingem conhecer-me perfilham com graça o desvario dos meus dias. Outros, perplexos na minha desordem, tecem o olhar piedoso de quem acredita que é um destino infeliz. Não tenho o receio de parecer, nem tempo a perder para simular o que sou. E nunca sou o que pareço. Porque me observam com negligência. Com o fragor do julgamento.
Encontro insignificância na superfluidade das regras. Despontam como borbulhas cancerígenas a corroer tudo o que é genuíno. Eu, louca, prefiro gastar o tempo a ser autêntica. São excessos! Gritam os sensatos. São impurezas! Clamam os pudicos. No desatino, eu dou mais uma volta à lua só para inventar novos sonhos, enquanto os prudentes evitam caminhos íngremes por privação de bravura. Esquecem que a melhor viagem é a que se vive por inteiro. Que o preconceito, a cobiça e a inveja são ladrões da felicidade. Na sua maioria, os grandes juízes da moral, falam como rouxinol, mas vivem como abutres. Levantam a cabeça como gigantes, mas têm alma de vermes. E, no fim de contas, vivem derrotados pelos seus próprios delitos.

Comentários
Enviar um comentário