PRESÉPIO
Aquele
manto negro estendia-se para lá do horizonte dos meus olhos que, surpresos,
ameaçavam a tempestade em noite de aviso laranja. Não havia vestígio de luxo ou
sementes de ouro a embelezar as mobílias de uma casa vazia. Sem portas. Sem
cortinas. Um espaço vazio. Como de resto ficaram as minhas veias. Vazias de
vida a correr.
O
cão latia à entrada com fôlego de um guardião. A porta chiava ao sabor do vento
gélido. Sentia cada gemido nos meus ossos. Foi um estalo a seco para a minha
vaidade sem propósito. A baixa luz, que surgia de um dos espaços da casa,
roubava a minha atenção. Escondiam-se, por entre os cobertores, pequenas
sentinelas douradas. Eram duas estrelas atrevidas a desafiar a minha ignorância
para o verdadeiro significado de felicidade. A casa era pobre, sem recheio. Mas
todo o espaço estava ocupado por tamanho amor. Não havia árvore de Natal. Nem
embrulhos ou luzes de muitas cores a tremular alternadamente. Entendi, no meu íntimo,
que se Jesus nasceu, foi ali. Haveria de escolher uma casa despida de ostentação
e recheada de amor para o Seu presépio. Gostaria de ter aqueles olhos
pequeninos, cor de canela, a velar por Si. Aquelas duas pequenas estrelas a anunciar
a alegria ao mundo.
A menina correu na minha direção de braços abertos. Ajoelhei-me para a receber. Entrelaçou os seus braços no meu pescoço e apertou com gratidão. Aquele laço lembrou-me que estaria a receber o meu verdadeiro presente de natal. Afinal, o que lhe estava a oferecer era tão pouco para o que me estava a retribuir. Num tempo em que as ruas são de asfalto, entristece-me este silêncio que provoca a distância. Vivemos de olhos gastos na jornada individual. Somos acumuladores de bens desnecessários. Vivemos para ter. Não doamos o nosso tempo aos outros. Somos, cada vez mais, um grão de areia a viver sozinhos num extenso areal e não uma gota de água que se junta e se transforma em oceano.

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