HARMONIA DO INVERNO

 

A nota predominante desta alma é a ingenuidade.

Não há ali o tumultuar da imperfeição sonora, nem o aroma bizarro da imponência. Ela surge elegante, com um semblante tão singelo que transborda nas suas maneiras, como a gentileza no seu olhar.

Sem a sumptuosidade dos egos régios, vive a sua vida sem alardes. Esquecida, até, no meio da multidão ávida por atenções. Onde perpassa a altivez de uma suprema figura presunçosa, ela desvia-se, para dar espaço à exposição, enquanto desce, tranquilamente, o seu olhar para a doçura da paisagem. Tem o gosto simples dos dias. E entretém-se entre a gratidão por um raio de sol a invadir o seu rosto e um passeio pelo terraço apinhado de cânticos diversos e entoados pelos tenores mais afinados. A sua ópera a céu aberto. Em noites de espetáculo, deixa-se arrebatar pela magnificência dos lustres, compostos por infinitas pequenas partículas de cristal. Verdadeiras cintilações fuzilando o crepúsculo transparente e distante.

Sem esse encanto, sem esse amor desprovido de aplausos e sem os beijos do sol, não estaria completa a sua existência. A sua imaginação repousa no meio de uma galeria repleta de sonhos e estrelas. Então permanece, até ao fim! Deixa-se arrebatar pelo encanto da partitura e esquece os seus dias de desalento. E, no dia seguinte, lá está ela, à mesma hora acostumada, de regresso aos seus deleites minguados.

Com as mãos enlaçadas no amor, desce, em pequena velocidade, a avenida engalanada com coruchéus e, num dos lados, os outeiros a dançar lentamente a melodia ventosa do tempo. Ele tem rosto de aldeia branca, tão calma como as suas fachadas quietas, mudas, silenciosas. Ele surgia, quase sempre, quando a noite vinha caindo, a oferecer-lhe emoção atroada. Ela, toda vibrante, lá se perdia nas suas encostas, para se encontrar de novo na estrada nítida onde começa a ver-se o céu azul.

Depois de tão voluptuoso passeio, ela regressava ao quarto espinhoso, esquecida de que vive entre as opulentas paredes, caiadas de puritanas tradições, só para lembrar a paixão que conduzia toda a sua jornada. 


Adormece o ensejo, entre línguas douradas a queimar os lábios de esplendor.
Apeia-se e extingue o seu corpo na ternura peninsular!
 
Liliana Mesquita Machado

 

 

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