LUMINESCENTE
Somos chocalhos.
No prado, à volta da vida, a ver quem chocalha
mais alto. Eu existo! Eu sou! Eu quero! E tudo isto é verdade, mas o que nos
torna chocalhos é querermos ser vistos. A todo o custo! Então, quebramos o
silêncio. Queremos assinalar a nossa presença à chegada. Agitamos as franjas e,
a cada movimento, o chocalho produz um som distinto, um eco metálico que
reverbera na alma dos que nos ouvem. Chocalhamos até que os olhos estejam todos
postos no nosso soar. Abafamos o chocalhar alheio. Só o nosso vale. Só o nosso
é música. Só o nosso é perfeito. E assim, só assim, nos tornamos visíveis à luz
do dia. À força! A chocalhar alto e a bom som. Sem melodia. Sem alma. Só o ruído
a produzir agonia no prado, à volta da vida.
Somos, cada vez mais, chocalhos.
À procura de alguém que nos escute. Sem nada
que valha ser dito. Às vezes só queremos produzir um escândalo. Estar no antro dos
ramos. E dar enfermidade a quem chocalha no mesmo prado. No meio do chinfrim, a
dor é muda e a empatia é surda. E lá vamos agitando o corpo para fazer soar o
som que tem dentro. Nada. Nada ressoa de dentro para fora num corpo que chacoalha.
Um corpo habitado encontra o sentido no silêncio recatado. Já um corpo que
chocalha, tem a alma doente. O seu som rasga o ar da manhã.
Cada chacoalhar é uma batida que ressoa com urgência e um propósito: enaltecer a si mesmo! Tudo o resto é ultraje.
Chocalhamos a velha cantiga à desgarrada.
Por despeito ou a despique. Não é a nota. Nem
tão pouco a afinação. É somente o elogio. Esse pedestal que estende os braços
para a linha do ego. Sai da manada. Larga o chocalho.
Escuta o silêncio. Olha para dentro.
Há fenómenos naturais que são belos, mas não
são visíveis a olho nu!
Liliana Mesquita Machado

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