COMBOIO PARA O INTERIOR
Apanhei o comboio para o interior. Viajei, de cabeça à janela, por longa distância. Até que percebi que, apesar da beleza da paisagem, era importante recolher os olhos para dentro. Saudar o sorriso; agradecer a gentileza; enfrentar o medo e, acima de tudo, dar as boas vindas à imperfeição. É a viagem mais longa. A que se faz para dentro. Fui com bagagem de mão. Sem grandes estimas e vaidades. A meio da viagem, nenhuma roupa cabia no meu corpo. Tinha engordado a alma. E já nenhuma combinava com a nova cor dos meus olhos. Nem com a luz dos meus cabelos. Calhou-me a mim, esta viagem. Queria saber onde moram os sonhos. De que é feito o amor. Se há mais céu do que terra. E descobri, nesse entretanto, que a distância era maior do que, sequer, ponderava. Estava tão longe de mim. Uma estranha a quem estendia a mão, volta e meia. Não sabia que, cá dentro, vivem estrelas que cintilam no escuro. Que guiam, como sentinelas, perante o desconhecido. Que trago pétalas nos pés. Que os ...