COMBOIO PARA O INTERIOR

 

Apanhei o comboio para o interior.

Viajei, de cabeça à janela, por longa distância. Até que percebi que, apesar da beleza da paisagem, era importante recolher os olhos para dentro. Saudar o sorriso; agradecer a gentileza; enfrentar o medo e, acima de tudo, dar as boas vindas à imperfeição. É a viagem mais longa. A que se faz para dentro. Fui com bagagem de mão. Sem grandes estimas e vaidades. A meio da viagem, nenhuma roupa cabia no meu corpo. Tinha engordado a alma. E já nenhuma combinava com a nova cor dos meus olhos. Nem com a luz dos meus cabelos.

Calhou-me a mim, esta viagem.

Queria saber onde moram os sonhos. De que é feito o amor. Se há mais céu do que terra. E descobri, nesse entretanto, que a distância era maior do que, sequer, ponderava. Estava tão longe de mim. Uma estranha a quem estendia a mão, volta e meia. Não sabia que, cá dentro, vivem estrelas que cintilam no escuro. Que guiam, como sentinelas, perante o desconhecido. Que trago pétalas nos pés. Que os meus dedos são raios de sol. Que as minhas palavras são pontes. Que a minha boca é a manhã a despontar a cada aurora. E que, em mim, vive a força para recomeçar… a cada dia, todos os dias!

Parti com destino ao interior.

E não é finda esta jornada. Sigo só, porque mal-acompanhada corro o risco de ficar no apeadeiro. O propósito é encontrar-me na multidão e, para tal, é necessário o silêncio das estações. Vou dando conta da descoberta das terras distantes que habitam em nós, para que possais partir também em busca do vosso mistério. Preparai o espírito para o desconhecido. E não é preciso grandes recomendações. Cada um faz a viagem à sua maneira.

Este postal tem o selo do coração!

 Liliana Mesquita Machado

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