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BARCO

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  Quantas luas atravessaram já os teus olhos. Quantas mais virão ainda cruzar o horizonte e destinar-te ao tempo. No início tudo é eterno e livre de danos. Vive-se consumido pela aflição da conquista. Fazem-se planos e alinham-se os sonhos, queremos sorver os anos para chegar depressa ao dia. Ao dia em que temos o que sonhamos. Ao dia em que nos tornamos no desejado. Ao dia em que, sossegados, simplesmente vivemos a linha traçada a transbordar de felicidade. Mas o futuro é um lugar esquivo. O destino vai-se tornando escasso. E vamos ajustando os sonhos. Trocamos o “quero ter” pelo “quero ser”. Valorizamos o dia que amanhece e as ternuras que a saudade faz nascer. É a idade que avança. A alma anseia ser barco, mas o corpo é já âncora lançada ao mar. As tuas mãos ganham outra forma desconhecida. Os sinais emergem do silêncio. Aquela que observas é, agora, um punhado de momentos guardados na lembrança. Suspensa entre os instantes. O teu rosto oculta a elasticidade do teu ânim...

O homem do espelho

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  Sabes o que me dói? A pele, quando olho ao espelho e miro a figura que se assoma no reflexo do que fui. Olho com olhar fingido, a inventar uma idade que já não tenho. E todas as manhãs encaro, em silêncio, a robustez que já não mora em mim e alegro-me com a mentira. E vou aldrabando o homem que envelhece, resgatando a força viril com mulheres que viajam pela noite, de bar em bar, em aventuras por extenso, como se isso prolongasse o infinito. Apago a amargura num copo. E afogo a verdade num cigarro. Inverto a ordem como um adolescente, para encontrar piada nas ideias. E rio sozinho, como um demente. Alheio à cavalgadura do tempo. Chego a casa como um farrapo, descalço um sapato e depois o outro. Dispo o peso do casaco como se da vida se tratasse e deito-me a teu lado. Já dormes, serena e inocente, sem que os sonhos te revelem o homem que vive para lá do espelho. Encosto o meu corpo ao teu, dou fogo às mãos, desço pelo teu peito e tiro-te do sono profundo. Cerro os de...