BARCO
Quantas luas atravessaram já os teus olhos.
Quantas
mais virão ainda cruzar o horizonte e destinar-te ao tempo. No início tudo é
eterno e livre de danos. Vive-se consumido pela aflição da conquista. Fazem-se
planos e alinham-se os sonhos, queremos sorver os anos para chegar depressa ao dia.
Ao dia em que temos o que sonhamos. Ao dia em que nos tornamos no desejado. Ao
dia em que, sossegados, simplesmente vivemos a linha traçada a transbordar de
felicidade. Mas o futuro é um lugar esquivo. O destino vai-se tornando escasso.
E vamos ajustando os sonhos. Trocamos o “quero ter” pelo “quero ser”.
Valorizamos o dia que amanhece e as ternuras que a saudade faz nascer.
É a idade que avança.
A
alma anseia ser barco, mas o corpo é já âncora lançada ao mar. As tuas mãos
ganham outra forma desconhecida. Os sinais emergem do silêncio. Aquela que
observas é, agora, um punhado de momentos guardados na lembrança. Suspensa
entre os instantes. O teu rosto oculta a elasticidade do teu ânimo. Mas revela
em pleno a tua sabedoria. Valoriza a idade. A tua e a dos teus. Cuida de quem
tem de deu a mão. Aprende com quem segue na tua frente. Na sorte, partilharás o
mesmo destino.
Iça a âncora, não é hora de atracar.
Faz
da idade a tua maré. Dá liberdade ao teu barco para fazer-se ao mar e conhecer os
oceanos. Não existe hora certa. Nem tempo, nem passado. Só o dia que acontece. Deixa-te
marear sem amarras. Que muitas luas atravessem os teus olhos, ainda. Que as
estrelas te possam guiar. Porque o teu leme, são os sonhos por cumprir. Fascina-te
com o horizonte sem medo de perder. Aprende o voo da gaivota. O canto da
baleia. O rumo dos peixes.
Perfeito, só o azul do mar.
E
a imensidão da vida ainda por navegar.
Liliana Mesquita Machado

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