O homem do espelho

 

Sabes o que me dói?

A pele, quando olho ao espelho e miro a figura que se assoma no reflexo do que fui. Olho com olhar fingido, a inventar uma idade que já não tenho.

E todas as manhãs encaro, em silêncio, a robustez que já não mora em mim e alegro-me com a mentira.

E vou aldrabando o homem que envelhece, resgatando a força viril com mulheres que viajam pela noite, de bar em bar, em aventuras por extenso, como se isso prolongasse o infinito. Apago a amargura num copo. E afogo a verdade num cigarro. Inverto a ordem como um adolescente, para encontrar piada nas ideias. E rio sozinho, como um demente. Alheio à cavalgadura do tempo.

Chego a casa como um farrapo, descalço um sapato e depois o outro. Dispo o peso do casaco como se da vida se tratasse e deito-me a teu lado. Já dormes, serena e inocente, sem que os sonhos te revelem o homem que vive para lá do espelho. Encosto o meu corpo ao teu, dou fogo às mãos, desço pelo teu peito e tiro-te do sono profundo. Cerro os dentes de prazer e os olhos de aflição. Porque te engano. Porque me engano a mim mesmo. Porque me perco na vida, sem saber amadurecer. E sinto a culpa a abraçar-me por inteiro. E tu beijas-me a pele que me dói. Trazes a doçura amarga das horas que se perdem e prolongas o ritmo, sem saber que é de tempo que preciso.

Levanto o corpo nu e carrego a angústia até à janela, para contemplar a minha escuridão. Depois do prazer acendo um cigarro. E percebo que há um homem escondido debaixo da cama quando vejo a silhueta de um velho a bater na vidraça.

Sou eu.

Liliana Mesquita Machado

 

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