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Fado sem ti

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Depois de longos anos a sonhar-te…   Como um poeta que anima a pena, a desenhar a letra do teu flanco subtil e de forma tão redonda. Aqueles olhos cor de sol quando se põe, sem saber se é tom de terra ou de mel, mas que traz luz aos meus. E via-te assim, sempre nos gestos delicados, a inventar uma dança no cabelo e a ajeitar a franja do vestido. Eras dona da elegância como tirana. E depois de longos anos a sonhar-te…   Eis que surges com os teus passos de mulher, os teus olhos de menina e de braço dado com a sorte, que ampara o teu andar do corredor até ao altar. Trazes flores de laranjeira e os teus sonhos aprumados, como manda a tradição. A tua trança que se desenha pelas dunas, a cair onde me exilei. E o desassossego bate ao peito, como uma velha a desesperar por sal para o jantar. Oh, se ao menos soubesses como estou há longos anos a sonhar-te… E eis que surges devagarinho, como quem quer prolongar a eternidade, a sorrir de mansinho, a chegar ao pé de mim. Ness...

O lugar dos perdidos

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Não sei como cheguei até aqui. Talvez descalço, a pisar os gomos da terra e a saborear o trago da chuva. Talvez estejas perdido. Num lugar onde tombam os meus braços e desaguam as minhas mãos sem, no entanto, ter dedos que te alcancem. Sem ti fico manco, a viver no doce engano, desejando que sejas par para mim. Ando num solavanco, cambaleante, sem rumo e sem dó. Como se sozinho, no orgulho ferido, fosse exaltação da coragem por exibir-me tão confiante, elevando o pé gracioso. Descalcei-me, simplesmente porque era de noite e, na escuridão, perdi-te o rasto. Não dormi. Subi até ao tornozelo só para buscar a tua sombra e, sabes? Nem isso encontrei. E antes que a meia luz nos cingisse o tacão, agarrei-me ao que havia de ti… a lembrança de seres igual a mim, como são as almas gémeas. E só para aplacar a saudade, fui ao espelho buscar-te as semelhanças. Não resultou. Porque tu, só tu… para trazer flores ao chão que pisas e cor ao corpo em que te ergues. E quanto mais olho para o...

Foi Amor

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Encontrei a tua carta, 23 anos depois. Li as tuas palavras com um nó na garganta. Se, naquela altura, estivesse atenta, elas teriam dito tudo. Ah… a nossa imaturidade! Foi ela que provocou a miopia das letras. Eramos um só para sempre. Companheiros, amigos, apaixonados.  Visitar-te no passado, foi deixar a chuva cair, finalmente, em terra árida. Eu sei, meu amor… fui eu que provoquei a erosão. Fui eu que impedi que as flores crescessem e construi uma vida desértica. Sabes o que dizem dos desertos? Que abrigam uma riqueza, normalmente escondida durante o dia, para conservar vida. Guardei as palavras para mim, para deixá-las sair todas as noites, sussurradas à entidade, em jeito de oração. Queria conservar uma riqueza – o sonho de amar-te e ser amada de volta. As palavras eram secretas, pois temiam não ser recíprocas. Mas agora que te leio, 23 anos depois, percebo que a insegurança de menina adolescente, tolheu o meu entendimento. Afinal, eu estava à tua altura. Se me e...