Fado sem ti
Depois de longos anos a sonhar-te…
Como um poeta que anima a pena, a desenhar a letra do teu flanco subtil e de forma tão redonda. Aqueles olhos cor de sol quando se põe, sem saber se é tom de terra ou de mel, mas que traz luz aos meus. E via-te assim, sempre nos gestos delicados, a inventar uma dança no cabelo e a ajeitar a franja do vestido. Eras dona da elegância como tirana.
E depois de longos anos a sonhar-te…
Eis que surges com os teus passos de mulher, os teus olhos de menina e de braço dado com a sorte, que ampara o teu andar do corredor até ao altar. Trazes flores de laranjeira e os teus sonhos aprumados, como manda a tradição. A tua trança que se desenha pelas dunas, a cair onde me exilei. E o desassossego bate ao peito, como uma velha a desesperar por sal para o jantar. Oh, se ao menos soubesses como estou há longos anos a sonhar-te…
E eis que surges devagarinho, como quem quer prolongar a eternidade, a sorrir de mansinho, a chegar ao pé de mim. Nesse deslumbre, confesso que me perdi sem mapa e sem bússola. Preso aos detalhes sedutores e formosos.
E não saberei nunca dizer como foi…
O padre no altar a rumorejar o missal, vejo as pétalas de laranjeira a desmaiar e tu… oh que triste lamento, tombaste redonda a meus pés sem cor. E se não foi a emoção que te roubou o sangue, nem eu sei pela vida toda o que foi.
E, ali, num só momento, fui tudo o que um homem pode ser.
Noivo, marido e viúvo.
E sem saber dizer como foi…
Como carimbar a má sorte no registo civil?
Liliana Mesquita Machado

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