Foi Amor

Encontrei a tua carta, 23 anos depois.

Li as tuas palavras com um nó na garganta. Se, naquela altura, estivesse atenta, elas teriam dito tudo. Ah… a nossa imaturidade! Foi ela que provocou a miopia das letras.

Eramos um só para sempre. Companheiros, amigos, apaixonados. 

Visitar-te no passado, foi deixar a chuva cair, finalmente, em terra árida. Eu sei, meu amor… fui eu que provoquei a erosão. Fui eu que impedi que as flores crescessem e construi uma vida desértica. Sabes o que dizem dos desertos? Que abrigam uma riqueza, normalmente escondida durante o dia, para conservar vida. Guardei as palavras para mim, para deixá-las sair todas as noites, sussurradas à entidade, em jeito de oração. Queria conservar uma riqueza – o sonho de amar-te e ser amada de volta. As palavras eram secretas, pois temiam não ser recíprocas. Mas agora que te leio, 23 anos depois, percebo que a insegurança de menina adolescente, tolheu o meu entendimento. Afinal, eu estava à tua altura. Se me escolheste, era porque me vias como um raio de sol a romper pela escadaria, com todos os meus defeitos: demasiado alta, demasiado magra e uma juba demasiado encaracolada. E tudo em mim era tão demasiado, que pensei ser impossível teres-me escolhido. Decidi dar-te outro rumo na minha cabeça, soprando ventos contra-alísios em direção ao coração. Se para um eras apenas o amigo, para outro eras o grande amor.

Agora, separam-nos, não só a imensidão entre dois continentes, esse gigante Adamastor, como os anos e… uma mulher com quem partilhas a vida. É tarde, eu sei, meu amor. Se, pelo menos, pudesse voltar atrás com a segurança da mulher que sou hoje…

Não casei. Não constitui família. Ainda estou na paragem do autocarro onde me deixavas, à tardinha. 

À espera que se cumpra o nosso destino. 

Liliana Mesquita Machado

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